Conheça a história da greve de operários ocorrida em 1919 que culminou no assassinato de um jovem anarquista andreense em plena Oliveira Lima*

Por Jairo Costa

Foto de abertura, operários da fábrica Pirelli na década de 1920 em Santo André. Foto da matéria, Constantino Castellani. Arquivo Revista MORTAL.

 

Quem passa pelo famoso cal­çadão da rua Coronel Oliveira Lima, no centro de Santo André, cidade da região metropolitana de São Paulo, não faz ideia de que o lo­cal, há quase cem anos, abrigou algumas das primeiras fábricas do ABC paulista e foi palco de muitas manifestações de trabalhadores em greve.

CRIANÇAS E ESCRAVIDÃO

Naquele período, início do século XX, os tempos eram muito difíceis na “terra das chaminés” – como era conhecida a cidade à época. A jornada de trabalho às vezes ultrapassava 15 horas diárias e os empregados eram constantemente submetidos a explorações, maus tratos e até torturas(!) em um regime análogo à escravidão.

Os operários (que incluíam mulheres, idosos e crianças) não tinham nenhum tipo de direito trabalhista garantido por lei e ainda por cima recebiam um salário quase que simbólico, miserável. O valor era tão baixo que uma mesma família tinha que empregar crianças de 5 anos, mulheres grávidas e até idosos de mais de 70 anos para conseguir ter um orçamento que minimamente pudesse mantê-los vivos.

Diante de tanta precariedade e injus­tiça, um movimento político organi­zado começou a ser forjado no chão das fábricas, dando os seus primeiros passos em Santo André e espalhando-se para outras cidades da região, cheias de imigrantes europeus, principalmente italianos, portugueses e espanhóis, que traziam consigo ideias revolucionárias em ebulição no Velho Continente.

Esses estrangeiros, em sua maioria adeptos da ideologia anarquista, encon­traram dentro das fábricas terreno fértil para proliferar suas teorias anarcossin­dicalistas e politizar a massa operária, promovendo assembleias, paralisações e criando associações de trabalhadores que seriam os protótipos dos sindicatos como hoje nós os conhecemos.

O mundo estava em plena transformação naquele período e, com o advento da Primeira Guerra Mundial, em 1914, os au­tonomistas começaram a discutir a cria­ção de uma organização que represen­tasse os operários da cidade e lutassem objetivamente por melhores condições salariais e de trabalho, pela redução da jornada de trabalho para 8 horas diárias, entre outras reivindicações.

O debate sobre a entidade sindical ama­dureceu com o tempo. Assim, em 1918, depois de quatro anos acumulando força e apoio dos trabalhadores, os primei­ros “peões” de Santo André, liderados pelos tecelões José Righetti, Constantino Castellani, Miguel Guillen, Alexandre (so­brenome desconhecido), Emilia Rossini, Benedito Folganolhi e pelos metalúrgicos Finamore e Francisco Moro, fundaram a União Operária, às vésperas do 1º de Maio, o conhecido Dia Internacional do Trabalho.

Os donos das fábricas da região, ao saberem da novíssima organização dos trabalhadores e de suas intenções em realizar protestos, prontamente deram início a uma série de ameaças a seus funcionários. Alguns foram torturados e outros, imigrantes, foram até mesmo ex­pulsos do país sob a acusação de serem “perigosos agitadores anarquistas”.

O próprio Presidente da República autorizava a repressão a esses grupos, colocando a polícia no encalço dos “agitadores”. Epitácio Pessoa (1919-1922) e seu sucessor Arthur Bernardes (1922-1926) tornaram-se conhecidos como notórios inimigos dos trabalhadores e dos autonomistas.

A GREVE

O proprietário da Tecelagem Ipirangui­nha, sr. Pereira Ignácio, também clara­mente contra a União Operária, passou a impedir sistematicamente a participação de seus funcionários na nova organiza­ção, chamando-os de “desordeiros”.

Apesar da forte pressão sobre os peões, a verdade é que a perseguição do sr. Ignácio provocou um curioso efeito cola­teral; ela fez com que seus funcionários decretassem o que foi possivelmente uma das primeiras greves da qual se tem notícia na região, que teve início no pró­prio Dia Internacional dos Trabalhadores.

Os operários da tecelagem aproveitaram a paralisação para lutar contra a jornada noturna de trabalho e também contra a Primeira Guerra Mundial, que se desen­volvia na Europa e atingia diretamente os mais pobres.

A União Operária apoiou incondicional­mente os trabalhadores que estavam de braços cruzados, promovendo ações conjuntas, dando estrutura material e ajuda financeira. Uma das muitas ações, decidida em assembleia geral com a ajuda da Federação Operária de São Paulo, foi promover a realização de uma passeata em apoio aos trabalhadores da Tecelagem Ipiranguinha, protesto que acabou de forma trágica.

O ato foi agendado para a segunda-feira, 5 de maio de 1919. A partir das 5 horas da manhã, centenas de trabalhadores se concentraram em frente à sede da União Operária, na época um pequeno barracão localizado na rua Gertrudes de Lima, hoje sede do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André.

ANARQUISTA FUZILADO

Ao amanhecer, um número muito grande, mas impreciso, de operários, talvez milhares (entre eles muitas mulheres e crianças), pôs-se a marchar rumo à Companhia Streiff, uma fábrica de móveis localizada na rua Coronel Oliveira Lima, onde iam pedir apoio e adesão à greve. Portando bandeiras, faixas e cartazes, os trabalhadores seguiam avançando, gritando palavras de ordem, algumas em italiano, outras em espanhol. Na linha de frente da passeata, de braços dados, marchavam os líderes da União Operária. Entre eles estava o jovem rebelde Cons­tantine Castellani, mais conhecido como Constantino, um rapagão de 19 anos, alto, de olhos claros e vívidos, tecelão da fábrica Ipiranguinha, identificado por muitos como o cabeça do movimento.

A passeata seguia seu curso. As mulhe­res e crianças distribuíam panfletos para a população denunciando as condições de trabalho precárias a que eram sub­metidos, além de aproveitar para pedir doações em dinheiro para o fundo de greve.

Quando a marcha chegou à Oliveira Lima, na época uma rua sem calçamento, de chão batido, os manifestantes dirigiram­-se para o Largo da Quitandinha, onde passaram a interpelar mais transeuntes, agitar bandeiras e expor seus argumen­tos em defesa da greve.

Aproximadamente às10 horas da manhã, surgindo de várias direções diferentes, policiais começaram a cercar a multi­dão de trabalhadores com o intuito de dispersar a turba.

Constantino Castellani estava na es­quina da rua Oliveira Lima com a Monte Casseros, local onde se localizava a fábrica Streiff, quando percebeu a ação da repressão. O anarquista subiu em um palanque improvisado e passou a discur­sar, denunciando a violência dentro das fábricas. Os trabalhadores aplaudiam seu discurso, gritavam total apoio ao movi­mento grevista e repúdio à ação policial.

Os policiais revidaram com golpes de cacetete. Mastros de bandeiras, pedras e pedaços de pau voavam, quando, de re­pente, tiros começaram a ser disparados pelos policiais. Isso disseminou o pânico entre os manifestantes. Muitos correram em direção à Igreja do Carmo, outros debandaram rumo à estação de trem. Os que não tiveram tempo de correr acaba­ram sendo alvejados com tiros de fuzil.

Em meio à confusão geral, gritos de­sesperados eram ouvidos: “Constantino tombou! Constantino tombou! A polícia matou Constantino Castellani!”. O líder havia sido assassinado…

A história se espalhou pela cidade de Santo André e em poucas horas milha­res de pessoas se dirigiram ao centro da cidade. Os trabalhadores “roubaram” o corpo de Constantino das mãos da polícia e o levou para a sede da União Operária, sendo velado noite adentro.

No dia seguinte, milhares de operários seguiram o cortejo fúnebre, que passou pelas principais ruas da cidade rumo ao cemitério da Vila Assunção. Constantino Castellani foi sepultado no fim da tarde do dia 6 de maio de 1919.

E SURGE O COMUNISMO

Imediatamente após seu enterro, a polícia passou a invadir casas, perseguir e prender todos os anarcosindicalistas envolvidos na greve e também os mem­bros da União Operária, que foi fechada e proibida de atuar.

Aquele foi o fim da influência anarquista nas fábricas de Santo André e de São Paulo, mas o espaço não ficou vazio. Da Rússia vinham notícias de um novo movimento de trabalhadores, chamado comunismo. A ideia se espalhou num piscar de olhos pela cidade e, em 1922, os operários já se encontravam conspi­rando, de forma clandestina, para fundar um partido na “terra das chaminés”. Em 1925, o comunismo já era a maior cor­rente ideológica no chão das fábricas e organizava milhares de operários para a luta contra a opressão e o capital.

*Publicado originalmente na Revista MORTAL nº 001 – 2013/14.