Por Fábio Müller

Foto: reprodução (Copacabana/REUTERS/Ricardo Moraes).

É no fim do ano que a gente lembra que a cor branca pode simbolizar a paz. Pombinhas à parte, acabamos inflados pelo marketing irritante e persistente das celebridades festeiras, de sorrisos brilhantes, impecavelmente maravilhosas e vazias. Mas, desconsiderando as influências subliminares, trajar a vestimenta branca durante essa ocasião é justificável pois, no fundo, desejamos a paz em contrapartida à selvageria e à brutalidade habituais que permeiam o nosso cotidiano, enquanto suportamos uns aos outros e a nossa própria imagem refletida no espelho, se distorcendo com o tempo.

De branco, imploramos por paz frente toda a merda escancarada que respinga e fede na nossa  cara, contaminando-nos com uma sensação pesada de impotência. Como rebanho adestrado, pedimos aquelas mesmas coisas de sempre, programadas, cada vez mais distantes dos nossos sonhos mais medíocres: felicidade, dinheiro, prosperidade, sucesso, amor, saúde, paz… Ah, que delícia! Vamos logo fazer os votos e as promessas para o ano novo, que chega em 5, 4, 3…

Enquanto uns estouram champanha importada, outros invariavelmente causam os velhos infortúnios que atormentam as nossas vidas. Escolha qualquer um, a lista é bastante extensa: furtos, assédios, explorações, estupros coletivos, repressões armadas, ameaças, extorsões, assassinatos em série, brigas, ódios, rancores, espancamentos, vômitos ensanguentados despejados sobre a calçada, cobertos com chester, macarrão de batata-doce e milho verde da ceia… É pavê ou “pacumê”?

E, se passamos o ano inteiro acusando desvios bilionários nas nossas valiosíssimas contas públicas, agora torramos só uns milhõezinhos com fogos de artifício, artefatos incríveis que possuem a surpreendente capacidade de estampar um sorriso paspalho nas nossas caras coloridas e embriagadas, durante os primeiros minutos do novo ano. Vale a pena!

A grande festa da virada deve contemplar muito barulho, bastante loucura e, tomara, demasiada putaria. No dia seguinte, uma puta ressaca. Praxe. A praia ficará nojenta, toda cagada; a cidade transpirará o odor ácido da urina seca dos mendigos e chapados apagados sobre a sarjeta. A dura realidade voltará à nossa visão turva, e tudo provavelmente estará mais ou menos do mesmo jeito. Mentiras. Desilusões. Manipulações. Propagandas e falsidades. Falsidades e propagandas. Traições. Corrupções. Gorduras exacerbadas que saltam de um corpo enrugado e cansado. Mau hálito. Flatos incontroláveis. Ternos fedendo o suor frio de uma caganeira que bate no final da tarde, enclausurado dentro de um busão lotado, depois de um dia esfumaçante de trabalho.

O ciclo recomeçará, novamente impelindo agente a sobreviver de todas as formas possíveis, numa sociedade onde a ética dificilmente transpõe a barreira do papel. Foda-se. É preciso sobressair ante os demais. A disputa é ríspida, o mundo é cruel, a competição é ferrenha e não há lugar para fracos. Caso não acompanhe o “progresso”, você ficará para trás, seu fracote de merda!

Sim, soa desagradável… e é! Mas o sucesso, ah, o sucesso… quando se alcança, é maravilhoso!

Mudar o calendário jamais representou alguma mudança verdadeira que produzisse coletivamente ao menos uma das coisas tanto desejadas no final de dezembro, depois que toda sacanagem já ficou diluída no ano que passou. Mesmo assim, permanecemos crentes e insistimos em suplicar, a cada 365 dias, por aquilo que nunca praticamos.

Aquela(e) generosa(o) moça(o) de roupas brancas, pulando ondinhas, brindando alegrias e cheia(o) de amor para dar, é a(o) mesma(o) calhorda que se delicia ao sacanear uma(um) concorrente qualquer, na primeira oportunidade sólida que houver. E assim continua…

Ano que vem, tem mais.

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