Nada contra brancos, inclusive tenho parentes que são.

Por Fhoutine Marie

Fotos: reprodução

Quando eu tinha 17 anos eu li uma entrevista da Camila Pitanga se afirmando como uma mulher negra. Foi nesse momento que me caiu a ficha. A vida inteira eu e meu pai brincávamos que éramos os pretos e minha mãe e irmãos, os brancos. Até hoje meus irmãos e eu nos referimos carinhosamente uns aos outros assim: o Branco, a Branca, a Preta. Por isso sempre achei engraçado esse discurso sobre ser todo mundo miscigenado no Brasil e ninguém ser branco de verdade – como se estivéssemos falando de pureza étnica e não de aparência. Na minha casa dava pra saber muito bem quem era branco e quem não era, que no caso era eu.

Sofri muito em silêncio por causa disso. Passei anos indo pra escola de sombrinha pra evitar tomar sol pra evitar ficar mais escura (o que não adiantava muito, pois eu morava no Amapá), alisando o cabelo e pintando de preto pra ver se parecia mais pálida. Achava chiquérrimo falar que era descendente de espanhois por parte de mãe e árabe por parte de pai e omitia que esse sangue árabe aí era do patrão que engravidou e abandonou minha avó paterna que era empregada da casa. Meu pai teve sequelas psicológicas a vida toda por causa disso, mas conseguiu entrar na faculdade e se formar, depois de anos sem dinheiro pra transporte e muitas vezes sem nada pra comer.

Meu pai dizia que eu e meus irmãos tínhamos que ser os melhores nos estudos, pois éramos privilegiados por ter café, almoço e janta todos os dias. Demorei pra entender o que isso queria dizer, porque até minha adolescência éramos uma família de classe média baixa. Eu estudava em escola pública, a casa que morávamos alagava o quintal e ficava uma água de fossa podre, o piso de madeira era cheio de buracos que tapávamos com jornal ou papel de pão e quando a gente viajava pra Belém nas férias pra ver a família não era de avião, era de navio e era na rede.

Mesmo assim o fato do meu pai ter feito faculdade proporcionou um salto de qualidade de vida em relação à vida que ele tinha tido, de pobreza mesmo. Depois de uns anos ele passou num concurso, começou a ganhar bem e o padrão de vida subiu, deu pra construir uma casa grande e boa, botar eu e meus irmãos no inglês e nos dois últimos anos do ensino médio eu fui pra escola particular. Tudo isso e várias coisas boas em termos materiais que vieram depois aconteceram porque ele fez faculdade numa época em que o acesso era muito mais difícil.

Toda vez que me perguntam se eu sou a favor do sistema de cotas eu conto a história do meu pai parecendo que vai terminar num final pró-meritocracia e termino falando que sim, cotas sempre, manda mais cotas que tá pouco. Passar fome não é bonito, não é heroico e preto não deveria ter que se ferrar para provar que vale alguma coisa. Conto também que o sonho do meu pai era estudar Medicina, mas só tinha uma chance. Não ia ter dinheiro pra se inscrever de novo, ele tinha que passar. Daí ele prestou a segunda opção. Se existisse sistema de cotas naquela época ele teria conseguido.

Por ironia do destino meus dois irmãos acabaram cursando Medicina. Como eles tiveram acesso bons colégios, cursinho, saúde, moradia decente e boa alimentação fizeram a parte deles e estudaram para entrar numa faculdade federal. Minha irmã entrou na segunda tentativa. Meu irmão, na quarta. Nenhum dos dois cogita se declarar negro pra fraudar concursos porque, apesar de ter tido um pai preto e terem uma irmã preta, eles sabem que são brancos e que o sistema de cotas não foi criado pra eles.

Estou contando tudo isso e rememorando vários traumas porque desde ontem estou indignada com as fraudes no sistema de cotas no curso de Medicina da UFMG. Doi. É essa a palavra. Doi. Doi o cinismo da branquitude na manutenção de seus privilégios, doi as justificativas de outras pessoas brancas para essas ações e principalmente, doi o fato de que nós estamos aqui todos os dias explicando de forma didática como funciona o racismo, colorismo, apropriação cultural pra pessoas brancas ignorarem completamente esse conhecimento e se achar no direito de emitir as opiniões mais toscas sobre assuntos que não lhes dizem respeito e sobre o qual elas não sabem NADA. Doi saber que quem sempre teve acessos não quer fazer o mínimo, que é estudar.

O que não falta no Brasil é gente igual aos fraudadores da UFMG.

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