Por Marcelo Mendez

Fotos: Bruno César Rocha (Cine) e Camila Visentainer

A noite é fria, a bruma é pesada, e a chuva que molha Santo André é ácida, cortante e intermitente.

Diferente dos ares mais frescos, que geralmente emanam com as águas de outubro, o cheiro que sobe às narinas é uma mistura de enxofre, com monóxido carbônico e caos. Nada evidencia mais a Cidade que margeia o rio Tamanduateí, que esse cheiro forte de poluição petroquímica.

Da janela do trólebus que me levaria até o Cactus Bar, do meu bom amigo Alvarão, eu via o mundo passando por entre portas de ferro fechadas, por bares melancólicos habitados por no máximo três, ou quatro cachaçeiros, a lamuriar suas vidas em balcões de fórmica com cheiro de veja multiuso.

São eles, a mais nova versão urbana de Cavaleiros Templários a fazer a frente de resistência da noite de sábado, em um dia onde toda a cidade foi para debaixo dos cobertores mais cedo. Eu não. Tinha uma pauta pela frente.

O caminho para Cactus tinha como prêmio de chegada, um show de uma banda que decidiu cantar o dia a dia dessas cenas que narrei acima, em Santo André.

Que ao contrário de sonhos megalomaníacos, de grandiosidades de pop stars falidos em suas essências, ousou ter prazer, ousou ser única e bem resolvida com seus atalhos improváveis, com os seus tropeços e seus pecados hedonistas.

Preparem-se senhores…

Agora é a hora que vocês conhecerem o Dr. Feelgood do Abc. É a hora que vocês saberem do Sentimento Carpete…

Cometendo o Rock pra se Divertir

O Sentimento Carpete é uma banda que produz muito.

Em 14 anos de estrada, foram vários demos, e mais dois discos oficiais, “Sentimento Carpete” de 2012 e “A Síndrome de Tiger Woods” de 2016 (que também é o nome da primeira ópera rock) e a segunda opera roqueira que já ta composta e será lançada; “A Chácara dos Senhores Bastos”, uma onda com a família dos caras que fundaram a cidade.

Seria muito fácil para os Carpetes, com essa boa trajetória, descambar para as delicias da vida hipster, para as maravilhas dos rocks convencionais, para as facilidades que se têm quando se faz o que manda a regra para agradar os formadores de opinião, ou coisa que o valha, de São Paulo, mas não, nem daria.

Ao contrário de se perder pelas obviedades do que se preocupam com agrados, os Carpetes escolheram Santo André, viver em Santo André, cantar Santo André, falar de seus Andarilhos, de seus Bêbados, suas Divas noturnas, suas boates insólitas, das vidas por detrás de palcos improváveis, como os arrabaldes do Ibiza, da lendária boate Diana e a apoteótica Dreams, onde a noite nunca acaba.

O Sentimento preferiu a vida em três acordes, embevecida em goles de cerveja e nacos de picanha do Bar do Carlinhos. Os Carpetes, portanto, são os que melhor entenderam as ladeiras de Santo André.

Os Carpetes e Los Ancianos Sudacas

“É um erro dizer que o Sentimento Carpete não deu certo. Temos 14 anos de banda, lançamos discos, tocamos aqui, em São Paulo, fora do Brasil, temos uma turnê na Argentina, onde adoramos ir, fizemos amigos, temos reconhecimento de gente que gostamos, nos divertimos e fazemos o que gostamos, o que queremos. Nos divertimos” – Conta-me Felipe Bigliazzi, “El Biglia de La Gente”, vocalista da banda.

No sábado em questão, Biglia faria uma dessas coisas que tanto o diverte. Os Carpetes lançariam “Sentimento Carpete Canta Los Ancianos”, um passeio pelos anos 60 e 70 da América do Sul psicodélica, roqueira, um passado esquecido, que só o Sentimento, poderia trazer à tona. Uma pancadaria sonora, maravilhosa!

Por um set que durou pouco mais de uma hora, os Carpetes destilaram sons de bandas antológicas como Los Iracundos, do Uruguai, Alan i Su Bates, do Chile, Los Matemáticos, do México, Los Gatos Selvagens, Billy Bond e la Pesada Del Rock And Roll e Johnny Tedesco, todos da Argentina e a seminal Los Saicos, do Peru.

Um passeio pela América do Sul dos anos 60, dissecado pela afiada dupla de cordas e riffs, formada por Fabio Muller (Guitarra) e China (Baixo) e sacudido pela . Em transe, Felipe Bigliazzi “El Biglia de la Gente”, comandou os festejos e botou quem esteve no Cactus, para chacoalhar a anca.

Isso tudo é apenas Rock and Roll

No começo, falei do Dr. Fellgood, uma bandaça Inglesa, formada e vivida em Essex, fim de mundo britânico, a partir de 1971. O mundo dos três acordes tem como consenso que o Fellgood talvez pudesse ter ido além de onde foi, que era uma das bandas mais fodas de sua época, mas que fez escolhas contrárias a isso. Não importa.

Estamos em 2017, falando do Fellgood, que tirou sua onda e entrou pra história do rock and roll. Não sei se o Sentimento Carpete estará nessa história daqui uns anos e isso também não importa.

Por hora, o que vale para nós é ouvir o Sentimento Carpete cantando a vida em Santo André. Nisso, eles são imbatíveis.

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