Por Leonardo Bueno

Fotos: reprodução.

Começou a queima de livros do novo nazismo brasileiro. O agente, claro, é o autointitulado Movimento Brasil Livre, o MBL, nada menos do que o fascismo disfarçado de liberalismo político-econômico. São muito sombrias as perspectivas abertas pela última ação do movimento.

Para quem não sabe: o MBL fez escândalo e pressão contra o banco Santander, financiador e hospedeiro da exposição Queermuseu, em Porto Alegre. ‘Queer’ é a palavra usada na Inglaterra para definir os homossexuais sem conotação pejorativa.  Logo, trata-se de uma exposição sobre o universo gay. O esperneio do movimento, que ainda não pode se assumir abertamente homofóbico – e já é, mas consegue enganar muita gente –, veio a pretexto de que a mostra trazia peças que defendiam e faziam apologia à zoofilia, à pedofilia e ao estupro.

É uma mentira duplamente cruel. Em primeiro lugar, porque não há, na exposição, nenhuma obra remotamente parecida com isso. Em segundo, e é aqui que a malícia do movimento é insuportavelmente desumana, porque parte da e chega à mesma ideia: a de que a homossexualidade é uma perversão – por isso, intimamente ligada a perversões como zoofilia e pedofilia. Gays, por serem gays, seriam portanto depravados, imorais. É um preconceito ultrajante contra um grande grupo – mais de 5% da humanidade – já historicamente perseguido. Mas, você sabe disso, reflete também o preconceito que a sociedade já cultiva em seu íntimo, e do qual grande parte não quer se livrar.

“Cruzando Jesus Cristo Deusa Schiva” – 1996 – Fernando Baril. Esta foi uma das obras da exposição Queermuseu, cancelada pelo Santander em Porto Alegre – RS.

Para seus intentos, o MBL logrou sucesso: a mostra foi cancelada pelo Santander um mês antes de seu fim previsto. Imediatamente, entre defesas intransigentes e manifestações de isenção, as redes sociais começaram a discutir o sentido de obras que retratassem atos de zoofilia e pedofilia, debatendo se elas devem ou não e se podem ou não ser proibidas. Começaram, é claro, a pulular notícias falsas, inclusive quadros que fariam parte da obra retratando relações entre humanos e animais. Não faziam. Dois a zero para a malícia do MBL.

Ocorre que essa é uma discussão já é em princípio ilegítima, seja ou não fruto de uma história real. A arte, num mundo livre (por ironia, a palavra “livre” está aqui sendo usada de maneira apropriada, ao contrário de sua aplicação no nome do MBL), não é nem deveria ser suscetível à censura.  E falo de qualquer obra, gostemos ou não dela.

A busca pela beleza – Há muitas definições de arte. Tomarei emprestada uma definição ‘artística’ – em oposição às definições ‘acadêmicas’, quiçá mais apropriadas, mas não sou um acadêmico. É a de Oscar Wilde, escrita para o prefácio de seu ‘O Retrato de Dorian Gray’: a arte é a busca pela beleza. Vamos avançar, mas mantenhamos Wilde conosco. Ele é mais necessário do que nunca.

A arte é a busca pela beleza por meio – acrescento eu – da representação simbólica da realidade. Toda obra de arte exprime a realidade de acordo com o artista. Toda obra é lida como uma expressão da realidade de acordo com o consumidor de arte, o receptor. Mas não é a realidade, é um simulacro dela. O que a torna artística são os signos que ela carrega. E esses signos podem ser lidos de inúmeras maneiras. Há uma em especial: é a maneira como o autor a enxerga. Especial, mas não privilegiada. A obra, uma vez publicada, não pertence mais ao seu autor. O que ela diz sempre vai depender do que o receptor entende.

E, como representação da realidade, a arte é perseguida desde que o mundo é mundo. Uma obra é censurada frequentemente quando ela fere a moral de uma determinada sociedade. Vamos a alguns exemplos:

– O filósofo francês François Marie Arouet, o Voltaire, foi preso duas vezes e exilado outras duas por causa de seus escritos. Um de seus passatempos prediletos era satirizar a hipocrisia da igreja católica no século XVIII. Hoje sabemos que ele tinha razão. Quando criou desavenças com o filósofo alemão Gottfried Leibniz, Voltaire não procurou censurá-lo. Em vez disso, escreveu um livro hoje famoso, ‘Cândido ou O Otimismo’, para satirizar Leibniz. No lugar da censura, a arte foi criticada por meio da criação de mais arte.

– Donatien Alphonse de Sade, o marquês cujo nome redundou na palavra ‘sadismo’, era um escritor francês do século XVIII preso também duas vezes. Embora fosse um libertino, não foram seus atos a causa de seu cárcere, mas suas obras mesmo. Quando detido, era proibido de escrever.

– D. H. Lawrence, escritor inglês dos séculos XIX e XX, teve sua obra ‘O Amante de Lady Chatterley’ proibida diversas vezes – e tudo o que o livro contava era uma história de adultério com detalhes picantes para a época, mas nada muito pior do que escritores bem mais antigos, como a grega Safo, o italiano Boccaccio, o inglês Chaucer e o luso-brasileiro Gregório de Mattos, já haviam escrito.

– O autor mais censurado pela ditadura militar brasileira foi uma mulher. Cassandra Rios escrevia novelas eróticas, e o sexo, claro, sempre foi um problema para o poder conservador.

É preciso entender, portanto, que a perseguição a uma obra não é o veto a um ato, mas ao símbolo desse ato conforme a visão do receptor, isto é, de quem censurou a obra. À igreja católica pouco importava que Voltaire, um aristocrata protegido por poderosas amizades, fosse um ateu (a propósito: ele também era católico!), mas sim que suas ideias questionassem e, logo, reduzissem o poder da igreja. Lawrence podia ser menos safado do que Boccaccio, mas cometeu o erro de escrever numa época em que a moral era mais conservadora do que a era em que o italiano viveu.

Porque tem isso: a moral de uma sociedade não é estática, mas também não é verdade que ela tenda a se liberalizar com o avanço dos tempos. Ela sempre avança e retrocede. A ordem dos movimentos em que se encaixam as literaturas brasileira e portuguesa é uma prova disso: sucedem-se classicismo, barroco, arcadismo, romantismo, realismo e modernismo e a liberalidade representada pelas obras de cada período fica ora mais aberta, ora mais oprimida. Um exemplo mais claro: quem está na casa dos 40 a 50 anos sabe que grande parte dos filmes que hoje causam escândalo seria, no final dos anos 1980, transmitida na Sessão da Tarde.

Memorial dos livros queimados, Berlim, Alemanha.

Queimar livros – Mas cheguemos ao exemplo que mais importa, o que deve mostrar o quanto é perversa a censura tentada e obtida pelo MBL: a queima de livros por adeptos do partido nacional-socialista alemão nos anos 1930.

Por que ela houve?

Hitler, em sua juventude, tentara ser pintor nas ruas de Viena após uma atuação apagada como cabo na I Guerra Mundial. Era uma tarefa inglória: aquela era a Viena que recém havia dado ao mundo o escritor Arthur Schnitzler, os músicos Johann Strauss pai e filho e o psicólogo Sigmund Freud. Poucos autores poderiam se destacar na sombra destes gigantes. Pior ainda para Hitler, que, tendo sido um soldado medíocre, era também um pintor medíocre.

Porque o jovem que quase acabaria com o mundo não conseguia entender o básico da arte de seu tempo. Enquanto ele tentava sem sucesso pintar uma ponte sobre o Danúbio, a algumas centenas de quilômetros Picasso inventava o Cubismo, Matisse criava o Fauvismo e Duchamp evoluía do Dadaísmo para o Surrealismo.

Eram novas formas de representar a realidade. O Cubismo enfrentava a impossibilidade de mostrar as diversas facetas físicas de uma pessoa – o rosto e as costas ao mesmo tempo – no plano liso de uma tela. O Fauvismo tentava representar a alegria da natureza a partir da visão de uma criança. O Dadaísmo era uma manifesto contra a violência da guerra e lembrava que a loucura é uma maneira de fugir de uma realidade insuportável.

Para Hitler, no entanto, era tudo arte degenerada. Por seus escritos, ele só conseguia entender o que fosse figurativo. Um quadro de Picasso, para ele, não representava facetas diferentes de uma pessoa, mas uma criança que nasceu com defeitos físicos. Conforme foi dominando a Europa, o ditador apreendeu o quanto pôde de artes modernas – e mandou destruir grande parte delas. O filme ‘Arquitetura da Destruição’ conta essa história.

O mesmo acontecia na literatura, com um agravante: a palavra escrita oferecia o risco de argumentar racionalmente contra as ideias, essas sim corrompidas, do nacional-socialismo. Queimar livros era não apenas uma manifestação artística reacionária: era um ato político reacionário. Assim foi que, em 10 de maio de 1933, uma grande queima de livros indesejados pelos nazistas foi organizada em toda a Alemanha. Parecia incrível na época – hoje, nem tanto –, mas muitos escritores apoiaram a destruição dos livros, argumentando que a literatura precisava ser purificada.

Por toda a Europa, os intelectuais que tinham o condão de representar a realidade por meio do símbolo e que enxergavam o quanto essa realidade era perversa foram perseguidos. Thomas Mann se exilou na Suíça. Bertolt Brecht fugiu pela Europa inteira. Walther Benjamin se matou. Na Itália, o romancista e químico Primo Levi, de ascendência judaica, foi deportado para Auschwittz – e acabaria sendo um dos poucos a sobreviver à política de extermínio.

O ato real – Embora não entendesse conceitos básicos de arte, Hitler não era burro. Seu projeto de atacar a arte conforme as ideias dele próprio não era uma proposta estética, mas política. Era um projeto de poder. Ou melhor, de ditadura: um projeto de dominar sem a menor resistência, sem nenhuma opinião em contrário. É óbvio que rejeitava os quadros de Picasso muito menos pela estética inovadora deles do que pelo fato de a inovação, por definição, ser diametralmente oposta às ideias conservadoras que o ditador representava.

Em outras palavras, a purificação da literatura alemã era apenas um pretexto; a real intenção era o domínio dos corações e das mentes da nação. E corações e mentes dominados não são livres. E corações e mentes livres dificilmente vão produzir arte de qualidade – e não vão poder representar a realidade de maneira crítica.

Porque a arte, por si mesma, nada mais é do que isso: representação. Voltamos a Oscar Wilde: “toda arte é absolutamente inútil”, disse ele, com o carinho e o comprometimento de quem fez da arte a sua forma de vida. O ato político transformador existente nela, bem como os atos políticos por sua liberdade ou por sua repressão: eles é que não são inúteis. Pois, ao contrário da arte, eles não são símbolos! São a coisa real. Organizar uma mostra, trazer amigos e interessados, discutir a arte, discutir a sociedade e o preconceito, mudar ideias – tudo isso é real.

As similaridades entre os atos de Hitler e de seus partidários e os ataques do MBL a uma exposição em Porto Alegre são óbvias. Como procedia o ditador, o movimento brasileiro também está produzindo mentiras para justificar a censura a uma manifestação artística. Como fez Hitler ao incendiar o Parlamento alemão e por a culpa nos comunistas, o MBL também atribui a seus adversários a violência que ele próprio pratica. Como fez o nazismo, o grupo também está procurando censurar a arte de que discorda.

Os resultados do nazismo hoje são conhecidos. Os do MBL estão no futuro, mas o movimento, apoiado por políticos e financiadores, não nos permite, hoje, imaginar um futuro otimista. A menos que os bancos, o governo e todas as formas de mecenato parem de lhe dar atenção.

  1. As similaridades entre o MBL e o nazismo não param por aí. Ações e proposituras idênticas também podem ser encontradas na primeira tropa de choque do nacional-socialismo, as SA. Esse é assunto para o próximo artigo.

PPS. Todas as considerações sobre arte que aqui estão expostas não significam que o autor deste artigo aprecie todas as formas de arte. Pelo contrário, muito da arte provocativa lhe parece, paradoxalmente, infantil. Mas esse é assunto para o artigo seguinte. ;-p

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