Extrato do livro “Aos nossos amigos”, do Comitê invisível (edição portuguesa).

Fotos: reprodução/internet. Tribos isoladas na amazônia brasileira.

As épocas são orgulhosas. Cada uma se vê como única. O orgulho da nossa é realizar a colisão histórica de uma crise ecológica planetária, de uma crise política generalizada das democracias e de uma inexorável crise energética, sendo o todo coroado por uma crise econômica mundial crescente e “sem equivalente desde há um século”. E isso lisonjeia, e isso aguça o nosso prazer de viver uma época sem igual. Basta abrir os jornais dos anos 1970, ler o relatório do Clube de Roma sobre Os limites do crescimento de 1972, o artigo do cibernético Gregory Bateson sobre “As raízes da crise ecológica” de Março de 1970 ou o relatório A crise da Democracia publicado em 1975 pela Comissão Trilateral para constatar que vivemos sob o astro obscuro da crise integral pelo menos desde o início dos anos 70. Um texto de 1972 como Apocalipse e Revolução de Giorgio Cesarano analisa-o já de forma lúcida. Se o sétimo selo foi alçado num momento preciso, isso não data portanto de ontem.

No final de 2012, o oficialíssimo Center for Disease Control norte-americano difundia, para variar, uma banda desenhada. O seu título: Preparedness 101: Zombie apocalypse. A ideia é simples: a população deve estar pronta para qualquer eventualidade, uma catástrofe nuclear ou natural, uma avaria generalizada do sistema ou uma insurreição. O documento terminava assim: “Se está preparado para um apocalipse zombie é porque está pronto para qualquer situação de emergência.” A figura do zombie provém da cultura vudu haitiana. No cinema norte-americano as massas revoltadas de zombies servem cronicamente de alegoria à ameaça de uma insurreição generalizada do proletariado negro. É portanto mesmo para isso que há que estar preparado. Agora que já não se pode acenar a ameaça soviética para garantir a coesão psicótica dos cidadãos, tudo serve para manter a população pronta a defender-se, isto é, a defender o sistema. Manter um terror sem fim para prevenir um fim aterrador.

Toda a falsa consciência ocidental está reunida neste comic oficial. Evidentemente que os verdadeiros mortos-vivos são os pequeno-burgueses dos suburbs norte-americanos. Evidentemente que a preocupação chã pela sobrevivência, a angústia económica de tudo faltar, o sentimento de uma forma de vida rigorosamente insustentável, não é o que virá após a catástrofe mas o que anima aqui e agora a desesperada struggle for life de cada indivíduo no regime neoliberal. Não é a vida declinante que é ameaçadora, mas a que já cá está, quotidianamente. Toda a gente o vê, toda a gente o sabe, toda a gente o sente. Os Walking Dead são os salary men. Se esta época é louca por encenações apocalípticas, que preenchem boa parte da produção cinematográfica, não o é apenas pelo prazer estético que esse género de distração permite.

De resto, o Apocalipse de João já tem tudo de uma fantasmagoria hollywoodiana, com os seus ataques aéreos de anjos libertados, os seus dilúvios inenarráveis, os seus flagelos espetaculares. Só a destruição universal, a morte de tudo, pode longinquamente dar ao funcionário suburbano o sentimento de estar vivo, ele que de entre todos é o menos vivo. “Que isto acabe!” e “que isto dure!” são os dois suspiros que nutrem alternadamente uma mesma angústia civilizada. A isto junta-se um velho gosto calvinista pela mortificação: a vida é uma prorrogação, nunca uma plenitude. Não foi em vão que falámos de “niilismo europeu”. De resto, uma mercadoria que se exportou tão bem que o mundo está já saturado. Em matéria de “globalização neoliberal” tivemos sobretudo a globalização do niilismo.
Em 2007 escrevíamos que “aquilo que enfrentamos não é a crise de uma sociedade, mas a extinção de uma civilização”. Este género de discurso fazia à época qualquer um passar por iluminado. Mas a “crise” passou por ali. E até a ATTAC divisa uma “crise de civilização” – o que é dizer muito. De forma mais pungente, um norte-americano veterano da guerra do Iraque que se tornou consultor em “estratégia” escrevia, no Outono de 2013, o seguinte no New York Times: “Atualmente, quando perscruto o futuro, vejo o mar a devastar o sul de Manhattan. Vejo motins da fome, furacões e refugiados climáticos. Vejo os soldados do 82º regimento aéreo-transportado a tropeçar em saqueadores. Vejo apagões elétricos generalizados, portos devastados, resíduos de Fukushima e epidemias. Vejo Bagdade. Vejo os Rockaways submersos. Vejo um mundo estranho e precário. (…) O problema que as alterações climáticas levantam não é o de saber como é que o Ministério da Defesa se vai preparar para as guerras por matérias‑primas, ou como deveríamos levantar diques para proteger Alphabet City, ou quando é que evacuaremos Hoboken. E o problema não será resolvido pela compra de um automóvel híbrido, a assinatura de tratados ou desligando o ar condicionado. A parte maior do problema é filosófica, trata-se de compreender que a nossa civilização já morreu.” Logo após a Primeira Guerra Mundial ela ainda era considerada “mortal”; coisa que, em todos os sentidos da palavra, inegavelmente o era.

Na verdade, faz já um século que o diagnóstico clínico do fim da civilização ocidental está estabelecido e subscrito pelos acontecimentos. Dissertar sobre tal não passa, desde então, de uma forma de entretenimento. Mas é sobretudo uma forma de distração da catástrofe que está aqui, e já há bastante tempo, da catástrofe que nós somos, da catástrofe que é o Ocidente. Esta catástrofe é antes do mais existencial, afetiva, metafísica. Reside na incrível estranheza do homem ocidental em relação ao mundo, estranheza que exige por exemplo que ele se faça amo e possuidor da natureza – só se procura dominar aquilo que se teme. Não foi por acaso que ele colocou tantos ecrãs entre si e o mundo. Ao se subtrair ao existente, o homem ocidental criou essa extensão desolada, esse nada sombrio, hostil, mecânico, absurdo que ele tem que transformar incessantemente através do seu trabalho, através de um ativismo canceroso, através de uma histérica agitação superficial. Rejeitado sem tréguas, da euforia ao hebetismo e do hebetismo à euforia, tenta atenuar a sua privação de mundo por toda uma acumulação de especializações, próteses, relações, por toda uma quinquilharia tecnológica enfim decepcionante. Manifestamente, ele é cada vez mais esse existencialista sobreequipado, que continuamente tudo engendra, tudo recria, não podendo suportar uma realidade que, por todos os lados, o ultrapassa. “Compreender o mundo, para um homem”, admitia sem rodeios o idiota do Camus, “é reduzi-lo ao humano, marcá-lo com o seu sinete”. O homem ocidental tenta, de forma vulgar, encantar o seu divórcio com a existência, consigo próprio, com “os outros” – esse inferno! -, designando-o como a sua “liberdade”,
quando não à força de festas mesquinhas, distrações imbecis ou pela utilização massiva de drogas. A vida é efetivamente, afetivamente, ausente para ele, uma vez que a vida o repugna; no fundo, ela leva-o à náusea. Tudo o que o real contém de instável, de irredutível, de palpável, de corporal, de pesado, de calor e de cansaço, eis aquilo de que ele se conseguiu proteger, projetando-o para o plano ideal, visual, distante, digital, sem fricção nem lágrimas, sem morte nem cheiro, da Internet.

A mentira de todo e qualquer apocalíptico ocidental consiste em projetar sobre o mundo o luto que nós não lhe podemos fazer. Não foi o mundo que se perdeu, fomos nós que perdemos o mundo e o perdemos sem parar; não é ele que em breve vai acabar, somos nós que estamos acabados, amputados, cortados, nós que recusamos alucinadamente o contacto vital com o real. A crise não é económica, ecológica ou política, a crise é antes de tudo crise de presença. A tal ponto que o must da mercadoria – o iPhone e o Hummer, tipicamente – consiste numa aparelhagem sofisticada da ausência. Por um lado, o iPhone concentra num único objeto todas as formas de acesso possíveis ao mundo e aos outros; ele é a lâmpada e a máquina fotográfica, o nível do pedreiro e o gravador do músico, a televisão e a bússola, o guia turístico e o meio de comunicação; por outro lado, ele é a prótese que barra toda a disponibilidade ao que está aqui e me coloca num regime de semi-presença constante, cómoda, retendo nele a todo o momento uma parte do meu estar-aqui. Recentemente até foi lançada uma aplicação para smartphone para contrariar o facto de que “a nossa ligação 24/24 horas ao mundo digital nos desliga do mundo real à nossa volta”. Ela chama-se, de forma bonita, GPS for the soul. Já o Hummer é a possibilidade de transportar a minha bolha autista, a minha impermeabilidade em relação a tudo, até aos recantos mais inacessíveis da “natureza”; e de regressar intacto. Que a Google anuncie a “luta contra a morte” como novo horizonte industrial, diz bastante sobre como nos equivocamos sobre o que é a vida.

No último quilate da sua demência, o Homem proclamou-se mesmo como “força geológica”; ele chegou ao ponto de dar o nome da sua espécie a uma fase da vida do planeta: pôs-se a falar de “antropoceno”. Por uma última vez, ele atribuiu-se o papel principal, desobrigado de se incriminar por tudo ter pilhado – os mares, os céus, os solos e os subsolos –, desobrigado de admitir a sua culpa pela extinção sem precedentes das espécies vegetais e animais. Mas o que há de mais notável é que o desastre produzido pela sua própria relação desastrosa com o mundo é sempre tratado da mesma maneira desastrosa. Ele calcula a velocidade a que desaparecem os calotes polares. Ele mede o extermínio das formas de vida não humanas. Sobre as alterações climáticas, ele não fala a partir da sua experiência sensível – tal pássaro que já não volta na mesma altura do ano, tal inseto do qual já não se ouvem as estridulações, tal planta que já não floresce ao mesmo tempo que aqueloutra. Ele fala com números, com médias, cientificamente. Ele pensa ter dito alguma coisa quando estabelece que a temperatura vai subir tantos graus e que a precipitação vai diminuir tantos milímetros. Ele até fala em “biodiversidade”. Ele observa a rarefação da vida na terra a partir do espaço. Cheio de orgulho, ele pretende agora, paternalmente, “proteger o ambiente”, que não lhe pediu tanto. Há todas as razões para pensar que esta é a sua última fuga para a frente.

O desastre objetivo serve-nos antes de mais para mascarar uma outra devastação, ainda mais evidente e mais massiva. O esgotamento dos recursos naturais é provavelmente muito menos avançado do que o esgotamento dos recursos subjetivos, dos recursos vitais que atinge os nossos contemporâneos. Se nos satisfazemos tanto a detalhar a devastação do ambiente, é também para cobrir a assustadora ruína das interioridades. Cada maré negra, cada planície estéril, cada extinção de espécies é uma imagem das almas em farrapos, um reflexo da nossa ausência do mundo, da nossa impotência íntima para o habitar. Fukushima oferece o espetáculo dessa perfeita falência do homem e do seu domínio, que não engendra mais do que ruínas – e essas planícies nipônicas aparentemente intactas, mas onde ninguém poderá viver antes de passarem dezenas de anos. Uma decomposição interminável que acaba por tornar o mundo plenamente inabitável: o Ocidente acabará por pedir emprestado o seu modo de existência ao que ele mais receia – o resíduo nuclear.

A esquerda da esquerda, quando lhe perguntam em que consistiria a revolução, apressa-se a responder: “colocar o humano no centro.” O que essa esquerda não percebe é o quanto o mundo está cansado do humano, o quanto nós estamos cansados da humanidade – essa espécie que se considerou a joia da criação, que se considerou no direito de tudo pilhar pois tudo lhe pertencia. “Colocar o humano no centro” era o projeto ocidental. Levou ao que sabemos. Chegou o momento de abandonar o navio, de trair a espécie. Não há nenhuma grande família humana que existiria separadamente de cada um dos mundos, de cada um dos universos familiares, de cada uma das formas de vida espalhadas pela terra. Não há humanidade, há apenas os terranos e os seus inimigos – os Ocidentais, qualquer que seja a sua cor de pele. Nós, revolucionários, com o nosso humanismo atávico, faríamos bem em atentar nas ininterruptas sublevações dos povos indígenas da América Central e da América do Sul, nestes últimos vinte anos. A sua palavra de ordem poderia ser: “colocar a terra no centro.” É uma declaração de guerra ao Homem. Declarar-lhe guerra, talvez seja esta a melhor forma de o fazer voltar à terra, se ele não se fizer de surdo, como sempre.

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