Por Leonardo Bueno

Fotos: divulgação.

‘Game of Thrones’ converteu-se, nos últimos anos, no maior fenômeno televisivo do nosso tempo. Como tudo o que diz respeito a esse tempo líquido, profetizado pelo artista plástico e agitador cultural Andy Warhol como a era dos ’15 minutos de fama’, o prestígio da série há de ser efêmero. Em pouco tempo, virão seus desdobramentos (‘spins off’), a cargo de roteiristas desesperados em manter sua relevância frente a uma futura novidade de sucesso.

Por ora, ‘Game of Thrones’ suscitou uma série de discussões sobre a qualidade artística da TV, como de hábito fazendo surgirem amantes incondicionais e detratores empedernidos. A última temporada, recorde de audiência da HBO – o canal responsável pela produção –, também foi marcada pela manifestação de desilusão de parte dos fãs mais tradicionais.

A série estaria rumando a uma conclusão convencional, quando seus anos anteriores, particularmente os primeiros, foram marcados por alguma tentativa de driblar os clichês. Dois exemplos: protagonistas são mortos subitamente e as relações entre os personagens, mesmo os mais comezinhos, são retratadas sempre, em certo sentido, como relações de poder. A sétima e penúltima temporada, porém, está separando mocinhos e bandidos de maneira muito clara, como é hábito na indústria cultural norte-americana.

O que escapa à maioria dos fãs e dos que detestam a atração é a importância desta palavra – “indústria” – para uma análise mais acurada do fenômeno. Dois críticos comumente relacionados com a cultura pop estabeleceram um pequeno diálogo que serve de guia a este entendimento. Ex-Bizz e ex-Herói, o jornalista Andre Forastieri, do R7, disse que não gosta de ‘Game of Thrones’ porque não tem o hábito de assistir a novelas – deixando claro que não acha as ‘novelas’ um modelo de entretenimento por si só ruim. Ex-Folha, Aymar Labaki, em resposta, disse que Forastieri matou a charada: ele, Labaki, aprecia a série acriticamente justamente porque gosta de ver folhetins.

Sim, ‘Game of Thrones’ é uma novela. Desde o seu primeiro capítulo, aliás. Também foram novelas séries consagradas ao final, como ‘Família Soprano’ e ‘Breaking Bad’. Podemos ir mais longe: as HQs seriais da Marvel e da DC Comics, os livros de Harry Potter e mesmo ‘O Senhor dos Anéis’, a óbvia inspiração para a obra de George R. R. Martin: é tudo novela. Ou, mais precisamente, são folhetins.

Linguagens – O folhetim não é um tipo específico de arte, como a pintura ou o teatro, mas um formato de publicação sequencial da arte pop, para usar o termo cunhado por Theodor Adorno. Além disso, o folhetim deve seu nascimento à Revolução Industrial – assim como alguns tipos de arte, como a fotografia, as HQs e o cinema. Em princípio, o formato era usado como móvel literário. Com o tempo, e já há muito tempo, expandiu-se para outras linguagens.

Não há nada de errado com isso. Podemos apenas imaginar a empolgação de escritores do século XIX, alguns deles excelentes, ao deparar-se com os jornais impressos em larga escala e descobrir que a divulgação de seus escritos não estaria circunscrita mais à publicação de livros e, portanto, ao público que tinha o hábito de ler livros. Toda pessoa alfabetizada lia jornais, e agora a literatura estava disponível nos jornais.

Por isso, os maiores escritores foram adesistas de primeira hora. Marco inicial do Romantismo na literatura, ‘Os Sofrimentos do Jovem Wether’, de Goethe, foi publicado em fascículos numa época em que a imprensa, inventada menos de dois séculos antes, já conseguia ter velocidade para garantir periodicidade.

Na França, o folhetim ganhou seu formato – o feuilleton, daí o nome – que perdurou por quase dois séculos. Muitos trechos da ‘Comédia Humana’ de Balzac, uma obra já intimidante em suas mais de 14 mil páginas, estão perdidos porque não se acham mais os jornais em que foram impressos. Alexandre Dumas não apenas aderiu ao formato: popularizou o desktop, na verdade uma empresa com redatores que escreviam os romances de acordo com as orientações do ‘autor’. Os livros são de autoria de uma equipe chamada Alexandre Dumas: eis uma definição bastante precisa de indústria.

Na Inglaterra, Charles Dickens inventou o cliffhanger, o ‘gancho’ que encerrava cada capítulo com uma nota de suspense, deixando o público a roer as unhas à espera da próxima edição – a morte de Jon Snow, no final da quinta temporada de ‘Game of Thrones’, foi um exemplo de cliffhanger. Na Rússia, Dostoievski não apenas publicou folhetins: ele foi o proprietário de seus jornais, na época em que as dívidas com os agiotas eram mais baixas.

No Brasil, muitos livros de Monteiro Lobato, um escritor que sabia tudo em matéria de edição, são folhetinescos. Claro, dirá você, são seus volumes do ‘Sítio do Pica-Pau Amarelo’, voltados às crianças. Não por isso: a obra máxima de Érico Veríssimo, ‘O Tempo e o Vento’, também é um folhetim. Os dois escritores são, não por acaso e ao lado de José Lins do Rego e de Jorge Amado, os campeões em vendas na literatura brasileira em suas respectivas épocas.

Também o cinema, em sua alvorada, era cheio de folhetins nos quais se consagraram personagens míticos como Tom Mix, Fu Man Chu e Tarzan – este, aliás, exemplo de um personagem que nasceu nos folhetins literários e migrou para os cinematográficos. Era o tempo das matinês e a indústria promovia as cinesséries como forma de garantir a presença do público, na época principalmente crianças e adolescentes, na semana seguinte.

Cabe lembrar, ademais, que o formato serial não se limitou às diversões escapistas: filmes consagrados pela crítica, como a série indiana ‘Apu’ e ‘O Poderoso Chefão’ também adotaram o formato, se bem que às vezes incidentalmente.

Business – A relação entre o folhetim e a indústria se faz óbvia ao observarem-se algumas das evoluções que ambas sofreram com o tempo. O folhetim nasceu com o jornal porque era uma maneira de usar a indústria de notícias, beneficiária da indústria gráfica, para alavancar a literatura como negócio, business.

A popularidade que o cinema ganhou quase desde seu início poderia ter surpreendido seu criador, Louis Lumière, mas não os primeiros produtores de filmes, que entenderam o mecanismo das produções populares como mercadoria. No século XX, a indústria gráfica lançou livros, muitos escritos de maneira apressada e formulaica – publicações como ‘Júlia’ e ‘Sabrina’ ainda são vendidas em bancas –, para alimentar não apenas os sonhos do público consumidor, mas também e principalmente os seus próprios bolsos. Apressada e ligeira, a TV desde o início adotou o formato serial e compreendeu que não valia a pena investir em seus produtos de maneira a competir com o cinema, mais lento e caprichado.

(Isso, no entanto, foi antes de inventarem o CGI e de a indústria norte-americana enfrentar sucessivas greves de roteiristas, que foram migrando paulatinamente para a TV, de modo que hoje, em capricho e em efeitos, muitas séries podem competir pelo interesse do público com produções hollywoodianas.)

Mas então por que a palavra ‘novela’ merece uma conotação tão pejorativa – e não apenas no Brasil? Também por causa do seu aspecto industrial: o volume de obras apressadas e a quantidade de produtos culturais em bancas, cinemas e na TV é imenso. E a indústria nunca foi ingênua. Atrás de dinheiro, ela procura e usa fórmulas de sucesso. Quanto mais experimentadas, melhor.

Mais do que isso: a indústria investe em pesquisa de imaginário público para garantir que a história será minimamente um sucesso. Tem de haver uma cena de sexo na página 35 e uma morte na página 72. O protagonista tem de começar o filme acomodado em sua realidade, encontrar um motivo para sair dessa acomodação, avançar nele, estabelecer um conflito, viver um dilema e resolvê-lo no final.

O exemplo mais bem acabado disso é justamente o que torna a palavra ‘novela’ tão maldita entre a intelligentsia brasileira: são as telenovelas da TV Globo e suas imitadoras. Quem lê Dostoievski, Dickens ou Balzac tem dificuldade em aceitar os diálogos entre intérpretes –  atores e atrizes às vezes muito bons – que grassam em nosso horário nobre há quase 50 anos.

O mesmo acontece, desde os anos 1950, no México e nos EUA, onde a TV desenvolvia histórias açucaradas para um público consumidor feminino. Para ter dinheiro para estas obras, as redes buscavam patrocínio nas indústrias que fabricavam produtos para as mulheres: as fábricas de detergente e sabão em pó! Daí que a telenovela, nos EUA, é chamada de ‘soup opera’ – em tradução literal, ‘romance de sabão’. Entendendo isso, você entende como a indústria não fabrica clichês apenas para suas obras: ela os fabrica e os perpetua na sociedade.

Padrão – Eventualmente, porém, surge uma obra à margem da indústria que redefine ou cria novos parâmetros – e a indústria absorve-o. Quentin Tarantino era um cineasta independente quando fez ‘Cães de Aluguel’, em 1992. Hoje é um padrão a ser seguido. O mesmo aconteceu com ‘A Bruxa de Blair’ em 1999. O que era novidade em pouco tempo converte-se em clichê.

Esta é a discussão que falta para o público consumidor, fã ou detrator de qualquer série: entender que, aquém de uma obra de arte, está consumindo um produto. Ele pode ou não ter valor artístico – e esse debate, um tanto subjetivo, fica para outra oportunidade. Em qualquer caso, contudo, diferencia-se de um músico erudito que estuda escalas atonais para compor tanto quanto de um poeta popular que vende seus cordéis na feira: estes não estão condicionados à indústria.

O problema que advém disso é o fato de que, sem perceber, o público consumidor tem seu pensamento moldado pela indústria, resultando em apatia e mediocridade, como uma mulher que se conforma com a ideia de que ela é o público do fabricante de sabão em pó, contanto que o vilão seja derrotado no fim.

De novo: não há nenhum problema em assistir à novela ou ao ‘Game of Thrones’. O problema é não ter pensamento crítico o suficiente para discernir arte e produto – e mesmo entender que determinado produto cultural pode abrigar arte e comércio em si. Uma pessoa só cresce individualmente e uma sociedade só tem sua cultura forte quando entende o que acontece nas entranhas do que ali é produzido.

One thought on “Os prazeres culpados do folhetim – Leonardo Bueno

  1. Uma leitura crítica das produções de séries televisivas, com uma abordagem histórica além do que a indústria cultural gostaria de ver e de se ver.
    Excelente texto, Léo!
    😉

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