Por Fhoutine Marie

Na virada dos séculos 19 e 20 houve uma onda de atentados na Europa num movimento que ficou conhecido como anarcoterrorismo. A ideia era que explodindo parlamentos, delegacias, cafés frequentados pela burguesia e assassinando publicamente presidentes e monarcas as pessoas poderiam se empolgar e se juntar ao bonde, fazendo a revolução acontecer. Evidentemente não rolou. Apesar do romantismo de pessoas sendo condenadas à morte gritando “Viva A Anarquia!”, fazendo lindos discursos expondo a farsa da justiça do Estado, o resultado foi morte, perseguição e encarceramento de anarquistas, além do endurecimento de penalidades que ficou de herança para as gerações posteriores.

Tem aquela frase inspirada em Bakunin que abre o fime V de Vingança que afirma “A Anarquia ostenta duas faces, a dos destruidores e a dos criadores. Os destruidores derrubam impérios e com os destroços, os criadores erguem mundos melhores”. Como pros anarquistas deu ruim muito cedo esse negócio de derrubar impérios (vide o que aconteceu com os nossos na Rússia revolucionária), a maioria tem se voltado para a construção de mundos melhores a partir dos destroços. Mas tem algo que nós nunca deixamos de fazer: rejeitar o Estado e suas instituições, visto pelos anarquistas não apenas como instrumento de dominação das classes privilegiadas e pretensamente esclarecidas, mas como um usurpador da liberdade, que sob o pretexto do bem comum explora, persegue, encarcera e mata.

Ontem, após a votação do arquivamento das investigações contra o presidente decorativo, as redes sociais foram tomadas por mensagens de indignação, não apenas pelo cinismo dos deputados que decidiram pelo arquivamento pela manutenção da “estabilidade” (oi?), mas devido a uma suposta passividade do povo brasileiro, que segundo parte dos internautas indignados deveria estar na rua quebrando tudo e se articulando para botar fogo no mundo.

Tem um velho chavão (que eu não sei de onde vem) que afirma: o enunciado contém a resposta. Como anarquista, como cientista política e pessoa negra a resposta para este questionamento sobre o porquê das pessoas não estarem na ruas tocando fogo ou quebrando tudo é bastante óbvia: porque não dá certo. Sabemos disso porque já nos demos mal antes e não pretendemos insistir numa tática cuja eficiência é bastante questionável, sobretudo numa sociedade em que praticamente tudo o que fazemos é monitorado e cujos dispositivos legais, numa espécie de Minority Report muito do mal, permite que pessoas sejam presas e condenadas por crimes que não aconteceram.

Mas o que me parece realmente preocupante nesse lamento a respeito de uma suposta falta de consciência política do povo brasileiro são as incoerências e o desconhecimento dos processos políticos, dispositivos legais e a realidade do embate nas ruas expresso nas postagens indignadas. Em que pese a revolta contra a corrupção e a impunidade, o que mudaria em nossas vidas caso Temer tivesse sido afastado e Rodrigo Maia assumisse a Presidência? A política ultraliberal em curso prosseguiria, assim como os arranjos escusos para a aprovação das reformas que vão passar – não por falta de mobilização popular, mas porque o que importa para a aprovação de qualquer coisa é obter maioria no Congresso Nacional, o que o atual governo já tem. Inclusive, não sei se vocês lembram, foi assim que se tornou governo, numa espécie de parlamentarismo extra-oficial.

A seletividade da Justiça é um fato. Se um traficante filho de desembargadora consegue se livrar da punição, assim como filho de um megempresário falido atropela e mata uma pessoa e não perde nem a carteira de habilitação ou um médico condenado por estuprar 48 mulheres pode cumprir pena no conforto de seu luxuoso lar, é possível que alguém se surpreenda e fique profundamente chocado com o arquivamento de denúncias de corrupção passiva? “Um grande acordo nacional. Com o Supremo, com tudo. Aí parava tudo. Delimitava no ponto que está”. Remember, remember o áudio do Romero Jucá.

Porém, o que me parece mais preocupante nesse discurso indignado da esquerda diz respeito à cobrança pela insurreição popular, o que eu carinhosamente chamo de encosto de vanguarda. Isto porque este tipo de discurso carrega uma separação entre quem denuncia as mazelas do país e o “povo”, visto como ignorante e apático.  Se não me coloco como parte do povo e não estou eu mesmo fazendo o que acredito ser correto (no caso, estar na linha de frente das manifestações) é porque espero que alguém faça por mim o que eu considero correto. Pode parecer muito simples, porém a realidade é mais complexa.

A realidade, meus amigos, é bala de borracha, gás lacrimogêneo, cavalaria, porrada, humilhação, flagrantes forjados, fianças que poucas pessoas podem pagar. A realidade é bomba de gás no metrô, é reintegração de posse, é desocupação de escola com PM batendo em criança. A realidade é Rafael Braga preso há quatro anos porque passou perto de uma manifestação carregando produtos de limpeza – e eu nem vou falar de genocídio da população negra, das pessoas presas aguardando julgamento, das mulheres parindo algemadas, da violência de gênero, dos assassinatos de pessoas trans, das crianças que são violentadas dentro de escolas, do extermínio dos indígenas, das consequências brutais da construção da hidrelétrica de Belo Monte porque não cabe numa coluna só todo o que combatemos e o foco aqui é protesto e resistência. Lutar não é crime, então não julgue quem tá procurando formas de resistência que não resultem em cana.

Os anarquistas já sabiam desde o século XIX dos equívocos de uma política que tem o Estado como alvo e objetivo. Porém a esquerda continua insistindo em fórmulas que a maioria de nós abandonou há mais de um século: a esperança de que a transformação social venha das urnas ou da tomada do Estado. A anarquia ostenta duas faces, a destruição e a construção. Talvez a maior contribuição que o anarquismo possa oferecer diante da crise atual – que não é apenas uma crise econômica ou das instituições, mas uma crise da esquerda – seja lembrar que as formas de resistência existem para além do Estado. O grande problema (ou solução) é que estas implicam sair do conforto de nossos lares e abandonar posturas arrogantes de quem pressupõe haver soluções prontas ou universais para construir um novo mundo a partir dos destroços deste que se desfaz.

*Fhoutine Marie é anarquista, feminista interseccional e cientista política 99% acadêmica, mas aquele 1% papo reto.

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