Por Jairo Costa

Fotos: reprodução internet e arquivo do autor.

Desembarquei  em Sorocaba no fim da tarde de 30 de dezembro de 1996 e fui direto para um bar chamado “Asilo Arkan”, onde encontraria  meu amigo Leandro Lioti, morador da cidade e que iria pra estrada comigo no dia seguinte, pegar carona rumo a Iporanga, no Vale do Ribeira.

Iriamos passar a virada de ano na casa dos avós da Agnes Franco, às margens do rio Ribeira. Ela já estava lá nos esperando junto com nosso outro amigo, Carlos Odas. Não existiam celulares ou internet  disponíveis para todos naquela época e a viagem tinha sido combinada semanas antes.

Agnes e Carlão nos esperavam em Iporanga. Não sabiam quando ou se chegaríamos, nós também.

Depois de atualizar o papo e os planos da aventura e tomar algumas cervejas baratas no “Arkan”, seguimos para a casa da mãe do Leandro, onde capotamos com o compromisso de acordar cedo e ir para a estrada.

Na manhã do dia 31 de dezembro de 1996, há exatos 22 anos atrás, apanhamos nossas mochilas e partimos para o acostamento da Raposo Tavares, em frente ao Shopping Iguatemi.

Naquela época eu já era veterano de caronas pelo Brasil, tinha corrido o mundo utilizando o dedão e era bastante confiante naquilo que fazia. Meu camarada, se bem me lembro, teria a sua primeira experiência e estava bastante empolgado com tudo aquilo.

Tudo é uma questão de sorte ou de tempo?

Nos anos 90, a probabilidade  de você conseguir carona era altíssima nas estradas de São Paulo. Não era uma questão de sorte, mas de tempo. Naquele  31 de dezembro  não foi diferente, mas demorou muito.

Passamos a manhã inteira de pé na estrada, com o dedão balançando, e ninguém parava pra nós. Muitos buzinavam,  reduziam a velocidade e quando saíamos correndo para embarcar, eles arrancavam em disparada.

Alguns amigos de outras caronas tinham desenvolvido até  tipos de simpatias ou superstições que eu, sem perceber, acabara absorvendo.

Então depois de horas sem sucesso, o negócio era amarrar alguns capins na beira da estrada ou amontoar pedras, colocando-as umas sobre as outras, dizendo para elas que só as libertaríamos se uma carona aparecesse.

“Preciso chegar a Curitiba dentro de 5 horas”

Os ânimos estavam em frangalhos quando no início da tarde uma carreta Scania piscou os faróis pra gente, começou a reduzir a velocidade e deu seta para entrar no acostamento. Nossos corações ribombaram rápido. Começamos a correr em direção a carreta.

O motorista abriu a porta gritando: “preciso chegar a Curitiba dentro de 5 horas”.   Eu disse que estávamos indo para Iporanga, mas que desceríamos em Apiaí . Ele pediu pra gente embarcar. O Leandro entrou primeiro, quando eu estava subindo na carreta, lembrei do mato amarrado e das pedras lá atrás. Pedi um minuto, dei um pique, chutei as pedras pra longe, desamarrei o mato de qualquer jeito e volvei  num átimo, muito feliz!

Claro que depois de tanto tempo eu não lembro mais do nome do motorista, porém a impressão que ficou foi a de que o sujeito era gente fina pra caramba. Um um cara jovem, tinha uns 27 anos, cabeludo, curtia rock e corria feito um louco. Na cabine da carreta nós contamos de nosso plano, ele falou de sua vida na estrada, nos ofereceu água e um baseado.  Algumas horas depois de muito papo e muitas risadas, desembarcamos em Apiaí.  Desejamos feliz ano novo para o gaúcho, ele desejou o mesmo e saiu em disparada, afinal, Curitiba ainda estava longe…

“O circular é aquele ali indo embora”

Em Apiaí, na rua um, o movimento de pessoas era quase inexistente. Com as mochilas nas costas, andamos um pouco pela cidade, procurando informações sobre como chegar a Iporanga. A cidade teria rodoviária?  Existiria algum transporte para Iporanga naquele horário, já no fim da tarde?

Um senhor, com uma camisa pendurada no ombro, ao ser indagado por nós contou sorrindo: “o circular é aquele ali indo embora”. Arregalamos os olhos e saímos correndo, gritando pelo ônibus. O busão não parou, levantou poeira e sumiu na estradinha de terra. Jogamos as mochilas no chão e ficamos em silêncio por alguns segundos, procurando uma alternativa.

Voltamos a encontrar o homem com a camisa nos ombros e perguntamos se existia outra forma de ir para Iporanga. Ele nos contou que aquele era único meio de ir para lá e que como era fim de ano, provavelmente seria aquela a última viagem.

Eu e Leandro conversamos, meio tensos, e decidimos ir a pé. Não dava pra ficar parado em Apiaí , a noite já estava se aproximando…. A angústia e o desespero deram lugar à adrenalina e então começamos a andar, tínhamos 42 quilômetros pela frente.

Cachorros, morcegos e um abismo aos nossos pés!

A estradinha era de terra, bem estreita, que mal dava para passar um carro de cada vez. Tinha muitas curvas e várias e longas subidas.

Peguei um galho para utilizar como cajado e ajudar na caminhada, Leandro também. Nós não conversávamos muito. depois de umas duas horas de trajeto começou a escurecer. Passamos a ouvir latidos de cães ao longe, depois os latidos ficaram mais altos e de repente estávamos correndo desesperados, sendo seguidos por uns 5 cachorros bem bravos.

Usamos os cajados para afastá-los, jogamos algumas pedras e continuamos correndo. Isso durou muito tempo. Estávamos cansados, com sede e com medo.

Depois de quase uma hora de perseguição (presumo), as bestas feras desistiram da gente. Começou a ficar frio, a caminhada agora se dava de forma lenta e pesada e a noite caiu sobre nós. Puro breu. A gente não via nada a nossa frente, ouvíamos algumas coisas voarem perto de nós mas não sabíamos o que era até que pelo barulho característico descobrimos que eram morcegos.

Mirante da Bela Vista onde quase tropeçamos e caímos no abismo.

Eu peguei meu isqueiro BIC no bolso da calça tentando ver alguma coisa e passei a acende-lo várias vezes para enxergar, até ele ficar quente demais na mão então eu o apagava, deixava esfriar e acendia novamente.

Uma hora eu o acendi e do lado esquerdo da estradinha percebi que existia uma espécie de muretinha de pedras. Com o isqueiro fui iluminando o lugar até conseguir ver uma placa onde estava escrito limite de municípios Apiaí/Iporanga. Tempos depois  descobri que ali era o mirante da Boa Vista, um abismo enorme que estava a poucos centímetros da gente e que poderia ter acabado com nossa jornada de forma trágica.

Olhando para o céu

Seguimos a caminhada em silêncio, nossas barrigas roncavam, as costas doíam, as pernas também. Do nada começamos a ouvir alguns fogos e isso nos animou. Apertamos o passo e ouvimos o barulho de um carro. Começamos a gritar e da escuridão uma Variante bege, caindo aos pedaços, surgiu. Contamos para o motorista sobre nossa saga e ele disse que estávamos muito perto de Iporanga e que faltavam 15 minutos para a meia noite. Jogamos as mochilas na parte de trás do veículo, embarcamos e pouco mais de 5 minutos depois  estávamos na praça central de Iporanga.

Agradecemos longamente pela carona, o motorista disse que conhecia a família de nossa amina Agnes e que iria avisar que tínhamos chegado. Eu joguei a mochila no chão, deitei num banco de praça, olhando para o céu estrelado.

Os fogos começaram a explodir, faltavam poucos minutos para a virada de ano. Ao longe começamos a ouvir risadas. Ergui a cabeça e vi Carlão e Agnes chegando na praça, com taças e garrafas de champanhe nas mãos, gritando: “Não acredito!!! Não acredito!!!!

Deu meia noite, o sino da igreja começou a badalar. Rojões pipocaram .

Feliz ano novo!

Nós gritamos: feliz 1997!

Anos depois, conversando com Agnes sobre esta aventura ela me confidenciou que nossa jornada virou lenda em Iporanga e que toda a pequena cidade contou sobre nossa jornada.

Nos anos 1990, meus tempos de carona pelo BR.

 

 

Estradinha de 42 quilômetros que percorremos a pé no dia 31 de dezembro de 1996.

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