Por Marcelo Mendez

Foto:  Vinicius Denadai

São caminhos sinuosos na boca da noite Paulistana.

As vias que ligam o abcd até o SESC Belenzinho podem não ser as mais lúdicas, não estão nos cartões postais, nem nas lembranças dos locais quando citam a cidade de pedra. Mas a velha Zona Leste, o metrô, a Avenida Alcântara Machado iluminada por luzes de um mercúrio em concordata e outras quebradas, tem la os seus encantos.

Bares à meia porta, outros mais lotados, luzes de neon renitentes a iluminar os caminhos, brilho vindo de copos de vidro em cima de balcões de plástico, ornamentados por drinks psicodélicos…

Das portas, as modernas junkiebox de um colorido espalhafatoso tocam os sons do povo, desses que entortam ancas, que sabem das delicias das noites profanas, sons que são familiares aos que rodam por caminhos tortuosos, de vidas duras, de sofreguidão, amores viscerais e outras mumunhas que se desenrolam por novos Blues, os blues que vem do povo, que só o povo sabe. Pensava nisso tudo no caminho da pauta.

Acompanhado do meu inseparável Puma Suede a vencer o caminho entre a estação de metrô e a pauta, seguia ouvindo um velho som do Paulo Sergio, entrecortado por riffs nervosos de outros acordes do Pappos Blues, quando as luzes do Belém resolveram brilhar. Cheguei.

Eu iria cobrir o show de um cara, cujas cenas descritas são totalmente familiares. Um cara que fez parte de todas as estruturas imagináveis da musica brasileira e delas, saiu vencedor sempre.

Odair José…

Era hora de ver Odair José cometer o rock pra valer no SESC Belzinho.

ANOS 70 E O BRASIL DE ODAIR JOSÉ

E qual era então, Brasil que sobrou para Odair José garoto, vindo de Goiás, chegando ao Rio de Janeiro para ser cantor no auge da repressão, no chumbo da ditadura militar?

De um lado havia a nova MPB capitaneada por Chico Buarque, Caetano Veloso, uma rapaziada mais descolada e criativa como o pessoal do Clube da Esquina em Minas, Jards Macalé, Tim Maia, Elis Regina, Mutantes, e do outro vinha a turma de Odair José. O pessoal da musica do povo.

Artistas populares como Waldick Soriano, Evaldo Braga, Nelson Ned, Diana e nosso Odair José ficaram então relegados a espaços mínimos, a clubes nas periferias, no interior e nos arrabaldes do Brasil. Por la, sem ter muito tempo pra lamentar o que rolava, encararam tudo; Repressão da ditadura, preconceito, limitações todas que envolvia o oficio de seus trabalhos e triunfaram.

Odair José é parte dessa geração. Com muito talento, letras com mensagens diretas, enorme poder de comunicação frente a essas massas, rapidamente virou porta voz dessa população. Emplacou hits eternos como “Pare de Tomar a Pilula”, “A Noite Mais Linda do Mundo”, “Deixe Essa Vergonha de Lado”, “Eu vou Tirar Você Desse Lugar”, “Planta Sem Raiz”, “Cadê Você”, Odair era o Rei da Central do Brasil!

Como que sabedor da intrínseca necessidade do povo falar, de por para fora as dores de amores e as mazelas da vida que passavam longe dos dials das rádios e das campanhas publicitárias do eixo Rio-São Paulo, Odair José foi quem melhor entendeu o que acontecia no Brasil, que o outro Brasil não queria ver.

O ROCK AND ROLL POSSÍVEL DE 2017

Houve sim um hiato na carreira e os motivos pouco importam. Indústria fonográfica preguiçosa e sacana, Mídia arregada e elistista, recessão, Collor, enfim… Dane-se, não importa.

Estamos em 2017 e o que se viu no palco do SESC Belenzinho foi um show de um homem cheio de vigor, inovador, que teve a coragem de estabelecer uma relação orgânica à vera mesmo com sua obra, longe da coisa imaculada que sem tem com clássicos, com o que já passou.

Odair José pegou sua trajetória toda, montou uma bandaça com três guitarras, deu som, deu peso para seus hits lendários e o que se viu naquela uma hora e meia foi uma enxurrada de sons e rocks que levaram a platéia a um transe atemporal, uma noite de neons dos anos 70, misturada com as tecnologias de celulares de ultima geração a tirar fotos implacáveis do que rolava ali.

Todo mundo queria ver e guardar Odair José.

Musicas novas como “Gatos e Ratos” e “Moral Imoral” vindas da turnê recente de seu novo disco recém lançado, formaram um set list vigoroso ao lado de hits dos anos 70 que ganharam uma roupa nova, cheia de riffs, peso, pegada. Voz limpa, feliz, força cênica de sempre, Odair encantou toda a platéia das mais variadas gerações que foram la para vê-lo.

UM BOLERO DE NÓS DOIS, PARA ENCANTAR A LUA DOS AMANTES

Enquanto o mundo era só frenesi, fotos e vídeos de aparelhos celulares em fúria, Roberto e Mari, dançavam…

Ele, um Dandi, um lorde, de gestos principescos a bailar pelo SESC Belenzinho, com uma delicadeza comovente, com a classe de um milhão de boêmios imortais, com todo cuidado do mundo ao conduzir o corpo sorridente de sua companheira.

Ela, uma linda. Só encanto, leveza, elegância a bailar por uma São Paulo que outrora foi desvairada e hoje, se contenta com apenas concreto e caretice. Roberto e Mari…

Através de seus passos de dança, acompanhei o show de Odair José. Ao término, ficou impossível não falar com eles. Descobri que estão pela casa dos sessenta anos, que estão juntos há décadas e que Odair faz parte demais do amor de ambos.

“Desde sempre ouvimos o Odair e estamos encantados de vê-lo aqui, em um lugar bacana como esse. Suas músicas são parte de nossa história de amor e acho um erro quando dizem que ele está voltando, que retomou sua carreira… Ele nunca deixou sua carreira de lado, nós que somos seus fãs sabemos disso” – Conta-me, Seu Roberto.

De mão dadas com ele e olhos brilhando ao ver seu Companheiro me falar, Dona Mari me falou de Odair, da dança e de todas as coisas:

“Ah faz muito bem, essa geração precisa de aprender a fazer essas duas coisas; Dançar com seu companheiro, com sua companheira e também ouvir Odair José. Serão todos muito felizes, tenho certeza.”

A minha conversa com Roberto e Mari me remeteu a algo que Odair José falou para a platéia, antes de cantar duas músicas da sua ópera soul de 1977, “O Filho de José e Maria”

“Na vida nunca repeti velhas fórmulas. Quem repete fórmulas não faz arte, faz negócios…”

Essa matéria é quase uma Ode, portanto, para um cara que nunca teve medo de nada, nem de empresário, nem de mídia elitista, tampouco medo de ser feliz.

Avec Odair, avec…

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