Por Ana Aparecida

Foto: Machado de Assis. Reprodução internet.

O riso é o signo de nossa dualidade; se às vezes zombamos de nós mesmos com a mesma aspereza com que zombamos dos outros é porque, efetivamente, somos sempre dois; o eu e o outro. […]. A gargalhada é semelhante ao espasmo físico e psicológico: estouramos de rir. […]. A risada não apenas suprime a dualidade como nos obriga à fusão com o riso geral, com o grande estrondo fisiológico e cômico do cu e do falo: o vulcão e a monção.
Octavio Paz

Hoje, dia vinte e quatro de janeiro de 2018, observando algumas reações reais e virtuais à condenação do presidente Lula, lembrei-me de algo que vivenciei como atriz, numa adaptação dramatúrgica do romance Capitães da Areia, de Jorge Amado.

Enquanto aguardava minha deixa em uma das coxias e assistia aos colegas de elenco representarem um estupro no centro do palco, ouvi o público rindo, por alguma razão, como reação à cena, mesmo que ali se estivesse representando uma violência.

Algumas pessoas gostam de repetir o clichê: “rir é o melhor remédio”, mas é importante lembrar que nem sempre. Muitas vezes, não se trata de algo relativo à cura, e pode estar mais associado à manifestação de um sintoma. Esse foi o caso do público da peça em praticamente todas as apresentações, e as razões podem ser diversas, desde o desconforto até à conivência com a violência.

Por que a representação da violência promove o riso? Essa pergunta me intrigou por anos.

Mas deixando de lado as confabulações e lembranças para voltar ao acontecimento do dia, entendo que, no caso da condenação injusta do presidente Lula, o riso ou sua derivação, a gargalhada, bem como as celebrações, as expressões de apoio a um judiciário partidário, os fogos de artificio e etc. parecem manifestações sintomáticas. Soam como o transbordamento da alienação e do analfabetismo políticos que assolam este país.

Muitas pessoas de classes intermediárias e até de classes mais pobres, seduzidas pelo discurso falacioso do “combate à corrupção” são levadas a crer que devem apoiar interesses de grandes empresários, herdeiros e políticos conservadores, que manobram as instituições para retomar de vez as rédeas das estruturas de poder.

É bom lembrar que toda essa espetacularização da política e da justiça nada tem com a corrupção ou o combate a esta, mas com a disputa pela hegemonia, num jogo que, sob o signo polissêmico da lei, parece justo e limpo, mas é torpe, injusto.

Vinculada à uma série de arbitrariedades e abusos que as lideranças golpistas e demais forças conservadoras têm perpetrado neste país, desde a deposição da presidenta Dilma no ano de 2016, essa condenação de um ex-chefe de Estado, proferida por um juízo ideologicamente posicionado (à direita), revela a nível de cooptação, desmantelo e descrédito em que se encontram as instituições brasileiras.

Nada disso é passível de comicidade, mas da mais absoluta vergonha, pois, sem a materialidade dos fatos é não somente injusto, mas também escandaloso atestar crime e condenar alguém por este. Nem a ignorância dos que clamam por justiça, mas não compreendem a gravidade da escolha dos desembargadores do TRF-4, é passível de riso, apenas de preocupação.

Lula é uma figura polêmica, seus grandes feitos como presidente, reconhecidos mundialmente, esbarram nas relações tortuosas que estabeleceu para garantir sua permanência no poder. Mas isso não é motivo para pactuarmos com sua condenação injusta. Especialmente porque, apesar de suas escolhas, muitas vezes questionáveis politicamente, esse homem de origem nordestina e operária, que surgiu das bases, foi o que mais manejou o sistema em favor dos pobres deste país.

Ainda assim há brasileiros que não associam sua tímida mobilidade social nos últimos anos às políticas sociais promovidas por aquele que, nesse dia de hoje foi condenado sem provas. Porque é inegável que a distribuição de renda aos que estavam na linha da pobreza, o aumento do salário mínimo, os programas de moradia, os financiamentos para pequenos empresários, a ampliação do acesso ao ensino superior, entre outras coisas fizeram diferença nesse país.

Nas condições atuais do país, vamos ver até quando se sustenta o discurso meritocrático, que segue negando tudo isso.

Ao elogiar a atuação superficial e risível dos algozes da democracia e debochar de suas vítimas, uma massa acrítica ri de si mesma. Por isso, acho importante lembrar duas coisas:

1 – O riso ignorante e a cagada são irmãos;

2 – Ainda não acabou.

Devemos lembrar que o dia de amanhã nos aguarda, a todos. E se é que ditados e clichês têm algum efeito, nós vamos ver quem ri por último quando estivermos disputando palmo a palmo as migalhas que sobrarem.

Caminhamos para um futuro de poucas expectativas no que diz respeito à inclusão social, à democracia, à promoção da equidade e até à liberdade. Não só pela condição em que se encontra Lula, mas também porque, se quem tem acesso à defesa é condenado sem provas, quem não tem está perdido. Pelo exemplo do judiciário nesta tarde de janeiro, aprendemos que uma decisão judicial pode legitimar suposições, delações e associações livres como prova.

São tantos se sentindo superiores, corretos e coerentes por condenarem o próprio futuro que chego a acreditar que sábio de verdade era Quincas Borba. Mesmo inventado e louco, ele tinha noção que quando grupos se empenham para destruir um ao outro, podem alastrar a destruição ao seu redor.

Quem leu o romance de Machado deve lembrar que, em sua metáfora perfeita, Borba deixa claro: nesse tipo de disputa, o vencedor corre o risco de conquistar somente as batatas. Já que, enterrados no solo, os tubérculos são das poucas coisas que sobrevivem à devastação provocada por uma guerra.

Nesse país, em que explorado odeia explorado, em que Coach é profissão e MEI é sinônimo de modernização, autonomia e sucesso (e não da precarização das relações de trabalho), o cenário não é nada bom.

Sem contar Reforma Trabalhista, desemprego e carestia, desde o golpe, foram encaminhadas 57 privatizações no Brasil e vem mais por aí. Logo, vamos precisar de visto para acessar determinados lugares. Vem ainda a Reforma da Previdência (com votação já marcada para o dia 20 de fevereiro).

Virão também as lágrimas de sangue a serem choradas pelos capitalistas sem capital, que comemoram arbitrariedades e, além de se esquecerem quem são na fila do pão, fazem vista grossa aos gestores públicos, senadores, deputados e juízes que vivem impunes apesar de seus crimes comprovados.

Que o futuro lhes seja suficientemente pesado para que ao menos pela dor aprendam que quando o assunto é disputa política, da palavra de ordem ao riso, tudo deve ser consciente.

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