Por Léo Bueno.

Fotos: reprodução.

O negro é uma invenção dos brancos

A frase é entoada meio como epígrafe, meio como epitáfio, pelo escritor norte-americano James Baldwin no filme recente que o homenageia, Eu não sou Seu Negro, dirigido por Raoul Peck e finalista na disputa pelo Oscar de melhor documentário em 2017.

Para entendê-la é preciso contextualizá-la, tarefa facilitada pelo método usado por Peck em seu filme: utilizar como narração trechos de Eu não sou Seu Negro, livro inacabado de 1987 no qual Baldwin refletia sobre três personagens de quem privou, os ativistas Medgar Evers, Malcom X e Martin Luther King. O que torna o filme poético – e bom – é justamente o texto de Baldwin, personagem complexo e trágico da cultura norte-americana.

A tragédia parece se desenhar no fato de, sendo amigo dos três, Baldwin sempre ter-se recusado a compartilhar o ativismo deles. Ele se via como um escritor e, por isso, tinha a obrigação de guardar distância crítica dos movimentos que Evers, Malcolm e King dirigiam, todos, cada qual a seu modo, em prol dos direitos civis da população negra norte-americana.

Só que os três, nesta ordem, foram assassinados em decorrência do próprio ativismo. Daí, e do remorso que sentia por ‘não estar lá’, Baldwin tira suas reflexões, frutos também de seus estudos universitários e do tempo em que pôde gozar a liberdade em Paris, cidade que lhe dera refúgio da violência e da opressão de seu Harlem de infância.

Nas entrevistas que proferiu à TV, na condição exótica – para os norte-americanos e mesmo para os brasileiros de então – de ‘intelectual negro’, o escritor lembrava: eu não sou negro. Eu sou um homem. Vocês é que me veem como negro desde que nasci. Assim como viam meus pais e meus avós como negros. Mais de um século depois do fim da escravatura, vocês continuam nos aprisionando nesta condição.

A sentença de James Baldwin ganha eco e repercute, talvez eternamente – conforme temia o próprio escritor –, em todas as sociedades ocidentais. Para além disso, ela recebe outros matizes em países como o Brasil, onde o preconceito se esconde numa larguíssima carga de miscigenação. E, no entanto, continua existindo.

James Baldwin

Escravidão – Aqui ela acaba de ganhar um estudo ao que parece mais profundo: o livro A Elite do Atraso – da Escravidão à Lava-Jato, do sociólogo Jessé de Souza. Nesta entrevista a Paulo Henrique Amorim, Souza explica como a elite, que importou escravos por séculos da África, continua operando sob a mesma lógica primitiva, ainda que a escravidão como exploração da mão-de-obra tenha sido extinta.

Em suma, o negro e seus descendentes não são escravos há 129 anos, mas continuam sendo submetidos ao ditame do senhor de escravo, cujo modus operandi não mudou nesse mais de um século, exceto pelo fato de que ele logrou sucesso em esconder a escravidão. Isso acontece ainda que absolutamente toda a elite brasileira, assim como a classe média, tenha genes africanos em seu sangue.

Sobre o negro fenotípico – aquele que tem a pele escura, os lábios grossos, os cabelos enrolados – pesa o fardo maior: ele é o bandido dos jornais, a empregada doméstica da TV. Quando aceito pela classe média, ele é o colega engraçado, aquele de quem as pessoas zombam porque, afinal, esse é o preço a se pagar pela inclusão. Sob a fome e a catástrofe, ele se converte num ser humano, resguardada a distância, e então é retratado como alguém a se auxiliar, alguém a quem ser solidário. Ter condescendência é privilégio exclusivo dos poderosos sobre os pacientes do poder. A condescendência é o antepenúltimo degrau na escala de crueldade dos poderosos. O último é a morte.

Senão, analise três situações bastante atuais em nossas cidades.

São Paulo: apoiado pela classe média, o prefeito João Dória Jr. adota uma política de exclusão dos pobres no Centro da cidade. Começa pela pulverização da chamada – equivocadamente, segundo o neurocientista norte-americano Carl Hart – ‘Cracolândia’. Pulverização é o termo: a Cracolândia não está mais na Luz: está sob o Minhocão, na Amaral Gurgel; na praça da República; no Largo São Bento; no Pátio do Colégio. Não há apenas usuários de crack ali. O que há em comum entre eles é outra coisa: são sem-teto e já não são contemplados pelas políticas públicas do Estado. Isso embora o conceito de ‘Estado’ tenha sido criado, lá se vão 10 mil anos, justamente para prover direito às pessoas em situação de vulnerabilidade. E a outra coisa que os sem-teto do Centro têm em comum é que são quase todos negros. Os que não são foram a isso reduzidos na visão da elite.

Rio de Janeiro (e Brasília): a guerra contra o tráfico sitia uma das grandes comunidades do país, a Rocinha, onde a maior parte da população é negra. O Estado do RJ sitia a Rocinha, sem efeito. O Exército então sitia a Rocinha e a anuncia pacificada – um dia antes de começarem os tiroteios, as prisões, os feridos e os mortos. Quase todos negros. Nesse meio tempo, nada menos do que três senadores são isentados de processos, embora suas fazendas tenham servido de campo para helicópteros transportando um total de quase uma tonelada de cocaína. Três senadores brancos e latifundiários. Da elite. Não é exagero concluir que as drogas que os brancos traficam impunemente matam negros nas favelas, traficantes ou não. São drogas que divertem a elite com a cocaína pura e que devastam os mais pobres, quase todos negros, com o crack.

Brasil inteiro: os seis cidadãos mais ricos do país têm, juntos, a mesma fortuna somada dos 50% mais pobres brasileiros. São quase 104 milhões de pessoas com um patrimônio médio de R$ 2,6 mil cada um. Médio, frise-se. Médio, no extrato social por excelência em que se concentra a população negra. Contra seis pessoas com um total de R$ 277 bilhões. São elas, segundo a revista Forbes: Jorge Paulo Lemann, Joseph Safra, Marcel Hermmann Telles, Carlos Alberto Sicupira, Eduardo Saverin e Ermirio Pereira de Moraes. Todos brancos.

Direitos – Sob esta realidade, como um negro há de agir e de reagir?

Ainda existe, na classe média e nas classes menos vulneráveis, quem se sinta e até quem aja solidariamente à população mais vulnerável do país. Há brancos que apoiam o movimento negro, assim como há homens que apoiam o feminismo e heterossexuais que lutam contra a homofobia. No entanto, quase todos, este articulista inclusive, costumamos nos ofender quando nos é apontado o óbvio: a lógica da elite escravagista nos deixa de fora do genocídio. Nós somos aceitos pela sociedade como parte dela, mesmo que uma parte inferior.

Sim, a constituição prevê que todos os brasileiros são iguais perante o céu e que todos têm os mesmos direitos. A constituição que, conforme os fatos indicam, é uma peça de ficção, um texto de humor mordaz, manipulado ao bel-prazer de uma elite que chega ao cúmulo de remover, em desacordo com todas as leis, uma presidenta legítima, honesta – e mulher.

Urge, nesse espectro, que avancemos para além da mera manifestação de solidariedade: que reconheçamos em cada um de nós o nosso próprio racismo, assim como nossa misoginia e nossa homofobia. E, mais do que isso, que ajamos convenientemente em busca de redenção por erros dos quais, se não são nossos individualmente, somos beneficiários.

Pois, graças à elite, os negros não têm os mesmos direitos que os brancos – e enquanto isso, nós, brancos que nos dizemos solidários, nos indignamos quando criticados com cinismo pelo movimento negro. Não é espantoso que um negro consciente nos trate com cinismo quando manifestamos nossa solidariedade. Espantoso é que ele não nos trate com violência! Em nossa realidade, os números de mais de 50 mil homicídios anuais no Brasil continuam incríveis, mas porque agora parecem pequenos. Retire os direitos da minúscula parcela – branca – da elite e aí você verá o que é um massacre.

Em outras palavras, Jessé de Souza está certo: nosso país nunca deixou de ser operado sob a lógica de uma elite escravagista. Sabendo-se disso, o título do ensaio Não somos Racistas parece mais do que equivocado. É, em verdade, um livro macabro. Seu autor é Ali Kamel, o diretor-geral de jornalismo da Rede Globo, píncaro representativo da nossa mesma elite. O capataz diz que não é racista enquanto chicoteia o negro no pelourinho.

E que negro é esse? É uma invenção do senhor de engenho, do capataz, do fidalgo. Uma invenção aplicada sobre, em primeira e última análise, um homem: edulcorado na origem pela visão do europeu, arrancado de sua tribo, chicoteado no porto, infestado de escorbuto na galé, vendido em praça pública, castrado por se engraçar com a filha do patrão, liberado a morar no morro sem luz nem esgoto, excluído da educação, excluído da saúde para, enfim, morrer sob a bala do exército.

Uma bala, dizem, perdida.

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James Baldwin morreu em 1987, dizendo que sua posição intelectual obrigava-o a ser otimista – o mais seria a morte. Não o era e tinha razão em não sê-lo. O mundo deu alguma esperança nos anos 1990, mas desconfio de que Baldwin não compartilharia dela.

Ele não viveu para ver Donald Trump ser eleito presidente nem para assistir à repetição da História em Charlottesville. Não viveu para vir ao Brasil como Carl Hart nem para nos dar mais algumas de suas obras que, explicando os EUA, ajudariam a explicar o ocidente.

Ele sobreviveu a Evers, a Malcom e a King, e nem Baldwin concordaria com que isso tenha sido uma circunstância feliz. Esse texto se encerra com algumas das frases de Baldwin, também um brilhante orador:

“As pessoas se agarram a seus ódios porque percebem que, uma vez que o ódio é eliminado, serão forçadas a lidar com a dor.”

“Nem tudo que se enfrenta pode ser modificado, mas nada pode ser modificado até que seja enfrentado.”

“Todos querem ser libertados de uma aflição, mas todos têm medo de ficar sem muletas.”

“A tragédia é que a maioria dos que dizem se importar não se importam. Eles só se importam com a sua própria segurança e seu lucro.”

“Não é comum morrer de amor, mas neste exato momento, em todo o mundo, milhões estão morrendo por falta dele.”

 

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