Por Ana Aparecida

Fotos: divulgação

“Dom Quixote desenha o negativo do mundo do Renascimento; a escrita cessou de ser a prosa do mundo; as semelhanças e os signos romperam sua antiga aliança; as similitudes decepcionam, conduzem à visão e ao delírio; as coisas permanecem obstinadamente na sua identidade irônica: não mais são mais o que são; as palavras erram ao acaso, sem conteúdo, sem semelhança para preenche-las; não marcam mais as coisas; dormem entre as folhas dos livros, no meio da poeira.”

Michel Foucault

Há algumas semanas, a Cia do Nó de Teatro, em Santo André – SP, sediou apresentações da peça teatral A Razão Blindada, do argentino Aristides Vargas.

Traduzido, adaptado e produzido pela Cia Paulicéia de Teatro, o espetáculo conta com a interpretação dos atores Dudu Oliveira e Cássio Castelan, dirigidos por Solange Dias.

A peça, que também já esteve em cartaz no Centro Cultural Oswald Andrade, em São Paulo, é uma releitura de Dom Quixote, romance renascentista escrito pelo espanhol Miguel de Cervantes Saavedra.

Essa retomada da figura do herói às avessas e de seu escudeiro, Sancho Panza, vem em boa hora e possibilita uma reflexão muito apropriada a estes tempos sombrios em que vivemos.

O texto pós-dramático de Vargas situa os icônicos De La Mancha e Sancho Panza num mundo diverso daquele que foi representado por Cervantes, em que o herói e seu escudeiro vagueavam errantes no curso de duas ilusões. A peça é ambientada numa espécie de cárcere que, em alguns momentos, parece concreto, noutros, imaginário.

Através de repetições de ações e diálogos que vez ou outra produzem um efeito non sense, os heróis resgatados das páginas amarelecidas do Renascimento envolvem os espectadores por meio de recursos metalinguísticos (pois interpretam outras personagens) e estéticos. Lançando mão da leveza e do humor, simulam aventuras e situações nas quais são livres.

Alternando-se também em solilóquios potentes e maravilhosamente tecidos, do ponto de vista poético-literário, essas mesmas personagens transpõem os limites do cerceamento por meio da imaginação, convidando o público a refletir sobre o peso da realidade. Assim, criam um eixo entre a loucura e a sanidade.

Diferentemente do herói e do escudeiro criados por Cervantes, na releitura realizada por Vargas, Dom Quixote de La Mancha e Sancho Panza parecem usar a loucura como recurso para não sucumbir ao cerceamento e à vigilância de forma mais consciente.

Na adaptação brasileira, são inseridos elementos de nossa história e cultura (popular e de massa), que possibilitam ao expectador se familiarizar com o mote desta peça, originalmente argentina.

Como sabemos, Brasil e Argentina são dois países que enfrentaram regimes repressores, que produziram presos, mortos e desaparecidos políticos. Nossas experiências dialogam, pois argentinos e brasileiros dividem o território da América Latina, que ainda hoje é refém de interesses imperialistas.

Essa experiência histórica que une os dois países é brilhantemente representada na versão brasileira de A razão blindada. Essa versão foi selecionada para participar do Festival de Teatro de Havana e, no momento, busca angariar fundos para custear a viagem dos membros de Cia. Paulicéia, que experimentarão mais uma aventura. Desta vez real e em terras caribenhas.

Para quem ainda não assistiu, ocorrerão apresentações nos dias 23 e 24 deste mês, na Cia. Do Feijão, em São Paulo.  E o valor do ingresso?

Pague quanto puder.

Abaixo, deixo os links para o financiamento coletivo e as informações sobre as próximas apresentações. Vale a pena conferir como o teatro contemporâneo ressignifica os heróis de Cervantes, inserindo-os num universo de múltiplos significados. Além disso, você ainda pode contribuir para levar o teatro brasileiro além das nossas fronteiras.

Recomendo!

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Você pode contribuir com a participação da Cia Pauliceia do Festival de Teatro de Havana, clicando neste link: <https://goo.gl/fybq1B>

As apresentações dos dias 23 e 24 de setembro, ocorrerão às 20h na Cia do Feijão, na Cidade de São Paulo. O endereço é: Rua Teodoro Baima, 68. Ao lado do Teatro de Arena. Próximo às estações Anhangabaú e República do metrô.

 

Ficha Técnica:

Texto: Arístides Vargas

Tradução: João das Neves

Direção: Alexandre Kavanji

Direção de atores: Solange Dias

Atores: Dudu Oliveira e Cássio Castelan

Direção musical/Composições originais: Charles Razl

Gravação e Mixagem: Rafa

el Agra

Cenário, figurinos e adereços: Guto Togniazollo

Iluminação: Mauro Martoreli

Operação de som: Gabriel K Texto: Aristides Vargas

Trilha Sonora: Charles Razl

Cenário, figurinos e adereços: Guto Togniazollo

Iluminação: Mauro Martoreli

Operação de som: Gabriel Kavanji

Fotos: Léo Xymox e Augusto Paiva (Programa)

Assessoria de Comunicação: Ester Vit

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