Por Mateus Novaes

Primeiro foi o de luz. Na sequência os pulmões. Um salto no tempo: embaixo da cama nunca brotou uma Caloi como disse o pastor com nome alemão. Estudar o ano inteiro não me garantiu nenhum encontro. Ler poemas ao telefone não teve o impulso necessário pra se chegar na praia e tomar sorvete feito personagem de sessão da tarde. As bronhas não me livraram do primeiro arrependimento. Acreditar que as pessoas da família ouviam Chico e Caetano invés de Amado Batista e Paulo Sérgio só me distanciou da língua. Há quem diga que o bom humor tem poderes curativos. Passo.

Hoje: meu poder de espectador talvez esteja no volume máximo. Dias inteiros a banalizar o sangue alheio que encaminha-me  a geladeira que tem uma sub zero trincando, essa ajuda escoar qualquer compromisso que eu possa ter com o mundo, além de ser um omisso assalariado e satisfeito por ter grandes sonhos e nunca ter levantado a voz pra um engravatado. Meu sonho é mudar o mundo. Meu mundo. Transformar o tédio em melodrama, com óculos escuros segurando um Cioran na mão esquerda e um bek na direita, na beira da piscina. Ser meu próprio programa preferido, sem perder a coerência em achar plausível uma artista engajada num programa ao vivo em rede nacional mostrar a sola vermelha do seu sapato enquanto recebe elogios da apresentadora um pouco antes do anúncio do Banco humanizado. Melhor voltar a si. Enxugar a lágrima de Campari e voltar ao trabalho. Tenho um texto pra entregar e estou atrasado. Mas como manter as coisas em dia nocauteado?

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