Por Ana Aparecida

Imagens: divulgação

No próximo dia 26 de outubro começam os encontros do clube Leia Mulheres na cidade de Mauá-SP. O grupo, que estreia sob a coordenação de Ivone Mariano, dá início às suas atividades com a leitura do livro de poemas Outros jeitos de usar a boca (Editora Planeta, 2015), da escritora indiana Rupi Kaur.

O surgimento de clubes de leitura e de outras iniciativas voltadas à promoção da literatura feminina no Brasil, embora bastante frequentes na atualidade, não são fruto de um movimento recente.

Na realidade, surgem como a expressão de uma luta que atravessa os séculos.

Ao longo da história deste país, diversas mulheres rejeitaram o lugar de sujeito representado na literatura e buscaram assumir o lugar daquele que opera o procedimento da representação. Ainda que tivessem de lidar com as sanções de uma sociedade misógina, racista e excludente.

Isso deixa claro que a luta política da mulher, que decorre da interrogação de seu lugar na divisão sexual do trabalho, também se expressa nos meios de produção cultural.

Historicamente, lutamos e resistimos para permanecer nas artes, para continuar exercendo o trabalho intelectual, para que possamos assumir a identidade de artistas, a despeito de uma série de omissões, exclusões e silenciamentos, que nos mantiveram apartadas deste meio. Especialmente, se temos cor preta e origem periférica.

Esses processos históricos, permeados pela opressão e pela resistência, trazem-nos ao que testemunhamos hoje: um verdadeiro levante de mulheres, das mais diferentes realidades sociais, que se colocam em disputa pelos meios em que se produz a literatura.

Não somente no que diz respeito à autoria, mas também ao processo produtivo do livro, sua comercialização. E ainda no que se refere à construção de nova uma narrativa sobre a literatura, uma na qual a mulher também seja protagonista.

Os clubes de leitura desempenham um papel fundamental neste levante. Eles se somam a uma série de outras ações e sua principal função é a formação de público para a literatura feminina.

Mulheres do ABC Paulista em consonância com o levante feminino na literatura

O ABC é uma região fértil para o surgimento de manifestações culturais e expressões artísticas. O histórico de reivindicações, luta e resistência, bem como a diversidade de sujeitos que nele vivem, tornam-no política e culturalmente pulsante.

Nessa região, a arte e as ações culturais independentes não são novidade. Porém, ultimamente, têm passado por um processo de ressignificação. Muito possivelmente em decorrência do contingenciamento de gastos com as políticas públicas de cultura, que assim como ocorre em todo país, aqui também temos enfrentado. E isso também se reflete no campo em que se encontra a literatura de autoria feminina.

Neste caso, vale citar iniciativas recentes como a Coleção PerVersas. Idealizada por Dalila e Luiza Maninha Teles Veras e publicada pela editora Alpharrabio, de Santo André. Trata-se de um novo selo literário dedicado à publicação exclusiva de autoras, em grande parte, moradoras dessa mesma região.

As obras são todas feitas de forma artesanal, em caráter minimalista, vendidas à baixíssimo custo e/ou no esquema “pague quanto puder”.

Só no ano de 2017, já foram publicados os livros: a mulher antiga, de Dalila Teles Veras, cascos e crinas sob um fundo escuro, de Conceição Bastos, relíquias de anjo, de Deise Assumpção, não sabia a idade, de Constança Lucas e Contracena, de Rosana Crispim[i].

Inicialmente lançadas no ABC, essas obras já percorrem o Brasil, conquistando outros espaços, como o encontro nacional Mulherio das Letras, ocorrido na cidade de João Pessoa, em outubro deste ano de 2017[ii].

No que diz respeito à formação de público, cabe citar o projeto Mulheres que Leem Mulheres, criado pela escritora e narradora de histórias, Penélope Martins.

Surgido através da gravação de difusão de vídeos pelas redes sociais e promoção de debates presenciais, hoje, o MLM integra a programação do SESC São Caetano[iii]. Neste espaço, Penélope Martins tem promovido uma série de atividades periódicas, inclusive voltadas à valorização da literatura feminina local.

O que é o Leia Mulheres[iv]?

 O LM surgiu no ano de 2015, idealizado por Juliana Gomes, Juliana Leuenroth e Michelle Henriques. Elas se inspiraram na proposta da escritora e ilustradora britânica Joanna Walsh, o #readwoman2014.

A iniciativa brasileira, tanto quanto a estrangeira, tem a proposta de promover a leitura das obras de autoras literárias.

Em geral, funcionam da seguinte maneira: um encontro é agendado com antecedência (num local específico) e é indicada uma obra para leitura. Neste encontro, as/os participantes podem ter lido a obra por completo, mas também podem comparecer sem ter iniciado ou concluído a leitura, em busca de motivação.

Trata-se de um espaço democrático, aberto à participação de todas/os.

Esses clubes já se alastram por diferentes localidades de vinte estados brasileiros. Sempre coordenados por mulheres e voltados à leitura e discussão de obras de autoria feminina.

A região do ABC Paulista já conta com um LM no município de São Bernardo do Campo. Há quase dois anos, o grupo se reúne, sob a coordenação da editora de literatura Thaís Vitale, para a troca de impressões sobre obras de autoria feminina, da literatura nacional e internacional.

Leia Mulheres em Mauá

Para Ivone Mariano, que começou frequentando o LM de São Bernardo do Campo e que agora coordena o clube em Mauá, iniciativas desse tipo se tornam fundamentais numa cidade em que são raras as iniciativas voltadas à literatura.

Além disso, ela acredita que boa parte das atividades culturais deste segmento estão centralizadas na capital ou em regiões do ABC geograficamente mais próximas da cidade de São Paulo (como São Bernardo, Santo André e São Caetano).

Nesse sentido, o clube serve como um espaço de formação de público e construção coletiva de saberes. Colocando-se como alternativa não somente aos moradoras/es de Mauá, mas também para aquelas/es de municípios mais afastados como Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra.

É o que ela detalha na entrevista a seguir:

Qual foi sua principal motivação para trazer o LM à cidade de Mauá?

Já faz algum tempo que reflito sobre o papel que a mulher ocupa na sociedade, nos meios políticos e no mercado de trabalho, porém, esta reflexão ainda não tinha chegado, pelo menos pra mim, no campo da literatura. Até que no início de 2016, ouvindo um programa de podcast sobre literatura, entrei em contato com o Leia Mulheres e ouvi a pergunta “quantos livros escritos por mulheres você já leu? Quantos tem na sua estante?”. Neste momento minha cabeça deu um clique e comecei a fazer uma lista mental, corri os olhos por minha estante e constatei o óbvio, eu tinha lido muito mais escritores do que escritoras, minha estante tinha muito mais autores que autoras. Apesar de ser engajada em causas feministas, eu estava lendo poucas mulheres. E veio o questionamento, porque? A questão é que o mercado editorial é muito restrito e não arrisca em novos mercados, por conta disso, as mulheres ganham menos visibilidade. É aí que esse projeto se torna tão importante. Eu me senti instigada a ler mais livros escritos por mulheres e também encontrei outras pessoas com o mesmo interesse. Através do Clube de Leitura “Leia Mulheres”, podemos dar mais visibilidade às escritoras e fomentar público.

Qual a relevância deste espaço para a cidade?

Eu entendo que o projeto tem relevância em todo território, mas na cidade de Mauá, acredito ter uma relevância ainda maior, já que quase não temos espaços de cultura e ainda menos voltados para a literatura.

Uma outra questão é que a maioria dos espaços para cultura estão fora da cidade, em São Paulo, por exemplo, o que demanda um deslocamento que muitas vezes se torna inviável para o morador de Mauá.

Sendo assim, o projeto é uma oportunidade de conhecer pessoas que se interessam pelos mesmos assuntos e compartilhar com elas.

Muitas vezes é difícil achar no nosso meio pessoas que gostem de ler e conversar. Eu mesma sentia essa dificuldade, lia obras inquietantes e não tinha com quem conversar, trocar ideias. Assim como eu, acredito que muitas outras pessoas busquem a mesma experiência.

Iniciei-me no Leia Mulheres na cidade de SBC, algumas pessoas de Mauá se interessaram, porém o deslocamento era sempre um dificultador. Agora com o clube para Mauá contemplaremos essas pessoas e reuniremos outras.

Porque é necessário formar público para a literatura feminina?

 O projeto foi inspirado na ideia da escritora britânica Joanna Walsh, que em 2014 mobilizou usuários do twitter com a hashtag #readwomen2014. A campanha questionava a desigualdade nos hábitos de leitura. Para equilibrar essa discrepância, é necessário que mais pessoas conheçam a literatura feita por mulheres e adquiram o hábito de lê-las. Pode parecer pouco, mas essa campanha tem potencial político e inspirador. Iniciativas como essa, construídas e articuladas por mulheres, buscam questionar e enfrentar a desigualdade de gênero, não só na literatura. Formar público para a literatura feminina fortalece a Voz Feminina e proporciona ferramentas de apoio para construirmos um lugar dentro da nossa sociedade, que oferece à mulher uma nesga muito estreita de atuação.

Sendo o feminino, então, uma invenção masculina, onde a mulher é sempre “o outro”, o desafio é ler o que as mulheres estão produzindo e reconhecer essa produção como sujeito. O projeto “Leia Mulheres” é um clube de leitura que debate as produções femininas e o papel da mulher na literatura.

Ainda no que diz respeito à formação de público, existe alguma intenção de incluir na lista de possíveis leituras trabalhos publicados por autoras locais?

Sim, com certeza. Os livros escolhidos devem ser títulos variados, passando por diversos gêneros e também países de origem das escritoras. Uma das ideias do Leia Mulheres é mostrar que mulheres escrevem TODOS os gêneros. Trazer escritoras da nossa região é mais que relevante. O ABC é uma região que produz muita cultura, literatura e boas escritoras, precisamos apresentar estas escritoras a quem gosta de ler e apoiar suas produções. Seria interessante, inclusive, estreitar o contato dos clubes de leitura com os escritores locais, uma vez que o projeto nos aconselha a fazer listas de leituras com livros que sejam de fácil acesso. Já que muitas destas produções não estão acessíveis em grandes livrarias, esse estreitamento nos possibilitaria adquirir os livros diretamente com o autor ou com a fonte que ele indicar.

Eis a oportunidade para que você também acompanhe este movimento.

O Leia Mulheres Mauá – SP convida a todas e todos para a leitura e discussão da obra Outros Jeitos de Usar a Boca, de Rupi Kaur, no dia 26 de outubro, de 2017 às 18h30.

Endereço: Rua Rui Barbosa, 60 – Centro. Mauá – SP (Cursinho Maximize – em cima do banco Santander).

Link para o evento no Facebook: <https://goo.gl/8mBcFT>

[i] Saiba mais sobre a Coleção PerVersas no blog da Livraria Alpharrabio: <https://goo.gl/R8xuGW>.

[ii] Conheça o Mulherio das Letras: <https://goo.gl/4mrFCj>.

[iii] Saiba mais sobre o projeto Mulheres que Leem Mulheres no site do Sesc São Caetano: <https://goo.gl/vwS971>.

[iv] Conheça o Leia Mulheres: <https://goo.gl/TYGT1B>.

8 thoughts on “Literatura feminina em movimento: leia mulheres na cidade de Mauá- SP – Ana Aparecida

  1. Obg Ana pela contribuição tão esclarecedora e rica de informações aki da nossa região, e Ivone Parabéns pela iniciativa e pela clareza com que vc argumenta a importância da literatura pra nossas amigas e vizinhas…….vc faz a diferença!

  2. Parabéns Ana Aparecida pela matéria, muito bem escrita, um assunto relevante e atual e que nunca tinha prestado atenção .Parabéns Ivone Mariano por essa ousadia em trazer este projeto para a cidade de Mauá!! Nunca percebi o quão poucas autoras femininas havia lido fora do âmbito pedagógico . Com certeza vou prestigiar !!!!!

    1. Obrigada, Giselle. Concordo com você, a literatura precisa se tornar parte da vida das pessoas. Não vivo sem. 🙂

  3. Que texto importante, Ana, e que alegria poder ter o Leia Mulheres Mauá referendado pelo seu artigo. Muito obrigada por divulgar o projeto e mais ainda por toda essa carga de informação que você disponibilizou pra gente, tem muita coisa acontecendo e que necessita de uegente divulgação. Parabéns pela coluna, pelo trabalho e por seu atuante ponto dr vista. Estamos juntas! Obrigada!

  4. Muito boa as informações sobre os encontros no Sesc São Caetano e a coleção da Alpha rabio , assim que conseguir irei passar na livraria e adquirir um exemplar no mínimo dos livros lançados . E sobre o encontro em Mauá muito bom e que se consolidem mais grupos na região .

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