Por Léo Bueno.

Fotos: reprodução.

 

Ex-boleiro, ex-governador de São Paulo, ex-deputado da ditadura – defensor do torturador coronel Brilhante Ustra –, José Maria Marin foi condenado por seis crimes em um tribunal de Nova Iorque, EUA. Aos 85 anos, há poucas chances de que não morra na cadeia.

Os crimes que motivaram a condenação relacionam-se todos à sua atuação como presidente da Confederação Brasileira de Futebol.

José Maria Marin nunca foi condenado pelos seus desmandos na ditadura, na política ou no futebol. Ele raramente foi incomodado pela própria mídia brasileira, e aqui se entende por quê: as negociatas que o levaram à cadeia envolvem-na a ela, a própria mídia. Ou pelo menos ao seu mais poderoso conglomerado.

Justiça e mídia que estão na proa do atual processo político brasileiro.

O sucessor de Marin, Marco Polo Del Nero, continua sendo presidente da CBF. Mas, indiciado, não pode pisar fora do Brasil. No ano que vem o Brasil viaja à Rússia para jogar a Copa. Del Nero fica em casa.

A Justiça e a mídia brasileiras garantem aqui ao ex e ao atual presidentes da CBF a guarida contra a Justiça internacional, secundada pela de tantos outros países.

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Ex-vendedor, talvez nem tão ‘ex’ assim, Edir Macedo é um dos homens mais poderosos e ricos do Brasil. É dono da TV Record e dono, dono mesmo, de fato senão de direito, da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd).

Nas últimas duas semanas, a TVI portuguesa mostrou que Macedo foi responsável, nos anos 1990, por um esquema de tráfico de crianças para adoção ilegal por parte de pastores e bispos da própria Iurd.

Os relatos da TVI beiram o surreal. Os três netos do próprio Macedo seriam frutos deste tráfico. Dois deles, irmãos biológicos, teriam sido roubados junto com um terceiro irmão, rejeitado pela mãe adotiva – filha de Macedo –, criado por outro bispo da Iurd e recentemente falecido. Por overdose.

A filha de Macedo teria, pouco depois, rejeitado e devolvido mesmo os dois filhos com quem quisera ficar, como se eles fossem duas action figures. Hoje adultos, os dois negaram a ilegalidade – e os argumentos que expuseram já foram derrubados pela própria TV portuguesa.

Ex-funcionários do lar da Iurd em Portugal, um lar aliás ilegal, confirmaram as denúncias da TVI. Por anos, mães e pais em situação de vulnerabilidade eram alienados do contato com seus filhos e suas filhas. Depois de seis meses, a diretora do lar recebia a guarda legal das crianças e permissão para viajar para o Brasil, para os EUA, para a Inglaterra. No país de destino, as crianças eram ‘adotadas’ e começavam uma vida de coerção e lavagem cerebral.

As que não eram levadas ficavam no lar. E apanhavam. Algumas poucas tiveram a sorte de voltar para seus pais biológicos.

Quando o esquema foi criado, não existia, na Justiça portuguesa, o crime tipificado de tráfico de crianças para adoção. Hoje existe. Mas já havia o crime de sequestro.

Na semana passada, o Ministério Público português abriu inquérito para investigar o lar, a participação da Iurd e o próprio bispo Macedo. Dependendo do andamento – e as provas são contundentes –, ele será outro a não poder colocar os pés fora do Brasil.

A mídia brasileira publicou alguma coisa sobre o caso na segunda, 12 de dezembro, data da estreia do primeiro episódio da reportagem da Iurd. Depois, silêncio.

Silêncio também da polícia, do MP e da Justiça brasileiros.

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A polícia, o MP e a Justiça brasileiros têm sido cantados em prosa e verso. Foram ovacionados nos últimos anos, num período que começou com o julgamento do Mensalão e ainda não terminou, mas terá talvez um ponto culminante marcado para o próximo dia 24 de janeiro.

Será o dia em que o processo do ex-presidente Lula pela suposta aquisição ilegal de um apartamento no Guarujá deverá ser julgado em segunda instância. Do resultado de um único processo depende o futuro do país.

Só que a Justiça brasileira já não goza do mesmo Ibope. E nunca deveria ter gozado.

A Justiça brasileira lava e sempre lavou as mãos para a presença, em nosso solo e em cargos de altíssimo poder, dos senhores José Maria Marin e Edir Macedo.

A Justiça dos EUA e a de Portugal são, na verdade, muito ruins.

Os EUA deram início à crise econômica que hoje se abate sobre o Brasil. Bancos e outras instituições financeiras passaram quase uma década vendendo títulos podres como se fossem limpos. Criaram uma bolha e se utilizaram de fraudes quando ela estourou, mantendo seu lucro artificialmente.

Nenhum dos executivos foi sequer julgado pelo esquema ilegal, embora sem dúvida seus malfeitos tenham resultado no ingresso à miséria e na morte de milhões de pessoas em todo o mundo. Um único homem foi condenado. Um executivo do segundo escalão de um escritório menor. Hoje, os mesmos bancos continuam fazendo a classificação do ‘risco Brasil’, entre outras. A Justiça dos EUA foi uma nulidade.

A portuguesa é corresponsável, ainda que inconsciente, pelo esquema de tráfico de pessoas organizado pela Iurd. Em primeiro lugar, assistiu passivamente à consolidação de um lar de crianças que só receberia autorização para funcionar nos anos 2000. Em segundo, autorizou a viagem das crianças sem nem tentar contatar seus lares biológicos. Em terceiro, nunca quis ouvi-los depois que as crianças desapareceram. A Justiça de Portugal foi uma nulidade.

Mas o que dizer da Justiça brasileira?

Procure uma notícia, uma única, solitária, no Google, sobre a polícia, o MP ou a Justiça abrirem ação, inquérito, processo ou só arguição a José Maria Marin pelo que fez na CBF, ou que seja a Marco Polo Del Nero pelo que faz hoje, ou a Edir Macedo pelos filhos ‘adotivos’ de seus bispos e pastores.

Essa Justiça imoral é a que hoje manda no Brasil.

E ainda assim muita gente continua torcendo por ela.

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