Por Marcelo Mendez

Fotos: Rodrigo Sommer

Era uma tarde do sábado, com todo o sol de um milhão de saara’s em desalinho; Quente!

Eu iria então, até a estação guapituba do trem, ainda em Mauá, para cobrir um festival de jazz. Mas não um festival qualquer:

“Jazz às Margens.”

À margem de tudo que é tido como convencional, longe de estereótipos comerciais e de outros clichês, o que veria, seria algo completamente contrário às concepções equivocadas do que se pensa sobre o gênero em questão.

O jazz que eu iria ouvir é flamejante, regado a drinks psicodélicos e quentes, com todo o peso de um milhão de toneladas de sons furiosamente lindos, que ousam, em tempos de truculência intelectual e outros ódios, serem criativos, diaspóricos e livres.

Livres…

E com toda a força, que só a liberdade pode dar, o Jazz rolou bonito em Mauá.

Perto da origem idílica e lúdica

O trem chega finalmente à estação Guapituba.

O bairro é o Parque das Américas, perto da divisa entre Mauá e Ribeirão Pires. Descendo as escadas da estação antiga, imediatamente mergulho em um mar de reflexões acerca da pauta que iria cobrir. Penso no propósito do Festival.

O “Jazz às Margens” surgiu de uma reunião de músicos, amigos e produtores culturais, como uma celebração que tem a intenção de resgatar a essência popular e acessível do jazz. Dar uma mostra boa da diversidade do cenário contemporâneo, que se abastece de toda essa miscelânea, não só de sons, mas também de outras informações, de outras tantas pulsações

Impossível, portanto, fugir do cerne desse propósito:

A origem…

O jazz em sua essência se fez em lugares improváveis, como por exemplo, os clubes do Kansas City na década de 1930. Foi nos palcos escuros e precários de casas como o Amos ‘n’ Andy, o Boulevard Lounge, o Cherry Blossom, o Chesterfield Club e o lendário Sunsetx, com suas noites alucinantes, regadas por nomes que iam de Count Basie até Buck Clayton, que o jazz cresceu, se formatou, deixou o formato das big bands para começar a ter a sua primeira grande revolução, que viria com o Bebop nos anos 1940.

Nos cinco minutos que me separavam da estação de trem, até a ladeira da Rua San Juan, onde rolaria o festival, pensava nisso tudo; Nas formas que o jazz e toda sua rebeldia, sempre buscaram para se renovar e se perpetuar. Não tive duvidas:

No Centro Cultural Dona Leonor, sede de onde tudo aconteceria, a revolução também seria feita. Da nossa maneira…

A catarse que vem com a boca da noite

As luzes do fim de tarde se recolhem no Parque das Américas.

A Boca da noite chega, sendo rasgada por sopros, beats, riffs e ritmos que ousam sair das formatações musicais convencionais, para dar um mergulho profundo, rumo ao coração das notas que se tocam. É a catarse, o surto, o happening necessário que acompanha o Conde Favela. O sexteto de Mauá chega para iniciar os trabalhos, elevando à máxima potencia possível, o conceito de liberdade. Daí para frente vem o uso e abuso de todas as experimentações sonoras possíveis.

Músicas como Equinoxx, de John Coltrane, ganham uma nova versão, uma cara que firma a identidade que a cada dia se torna mais consolidada; O som do Conde, a cara do Conde, o Jazz do Conde que passa a ecoar por todos os cantos.

Na segunda atração, Marco Nalesso e a Fundação, fazem um show seguro, mantém o bom clima da festança e passam a bola para o Otis Trio fechar o Festival.

Carreira firme, 10 anos de estrada, trabalho reconhecido na cena jazzística contemporânea tanto daqui, quanto de fora do País. O Otis Trio é uma realidade no gênero, uma força e uma presença sempre constante e em eventos como o “Jazz às Margens”. O Show, como sempre tem sido ao longo desses 10 anos, foi uma maravilha. Um trio de amigos entrosados, a fim de tocar, que chegam ao palco e se divertem de fato. O ofício do Otis Trio é ter prazer no que faz.

Luiz Galvão, guitarrista da banda, foi um dos idealizadores do evento. Ao término da apresentação do Otis a gente se viu e falamos um pouco sobre tudo isso.

“Acho importante que tenhamos atrações, que a gente possa realizar as coisas, que possamos seguir e que as pessoas freqüentem a quebrada. Acho que a semente está lançada.”

Me despedi de poucas pessoas ao término do festival. Desci a Rua San Juan, rumo à estação de trem, de olho na lua linda que apareceu na noite de sábado. No caminho, pensei em sonhos que me pareceram bem possíveis. Tive certeza que sim.

Todas as vezes que sonhados às margens, sempre serão.

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