Por André Okuma

Foto: reprodução.

Caro Índio,

O nosso filme tá pronto, pelo menos uma parte dele, e assistindo ele aqui não consigo conter a avalanche de sensações que me implodiram durante este processo. Antes de te conhecer, fazia uns meses que já vinha trabalhando na ideia deste filme, a minha pira neste projeto estava em um certo desencanto com o cinema, com a arte e de como percebia o rumo que as coisas iam tomando, sempre achei o máximo pensar e fazer filmes, mas de uns tempos pra cá estava sentido uma profunda náusea só de pensar em fazer um filme. É foda quando você começa a sacar como as coisas funcionam de fato, de quem é que tem feito os filmes aqui no Brasil, de quem consegue dinheiro pra isso, de como esses filmes são feitos e  pra quem são feitos,  e que vão cada vez mais se tornando referências, mas que não passam de uma romantização vazia sobre uma pobreza idealizada. Mas o pior ainda é ver uma nova geração que vem da quebrada vem sonhando em ser igualmente vazios, negando a si próprio em troca de migalhas e likes, retratando e refletindo pouco o que de fato é o rolê.

O sofrimento na narrativa cinematográfica é ótimo pra trajetória do herói, o fodido é sempre um personagem perfeito, e toda a fossa que é a sociedade se transforma em uma escada para o mérito de que só vence na vida quem se esforça, a vitória é o destino do herói, e nada melhor no sentido social e estético do que pegar um fodido pela sociedade e transformá-lo em um herói, aí fica todo mundo feliz com o final feliz do personagem que sofre, se esforça e vence na vida, o mundo fica mais leve, sem sentir a culpa de foder com tudo por causa do dinheiro. Você sabe melhor do que eu, que a vida (essa que o cinema diz que retrata) não é assim… Mesmo que pelo cinema nós queiramos questionar o sistema, sinto que o máximo que conseguimos é nos transformarmos em um produto “diferenciado” no mercado, e que na melhor das hipóteses, não passamos de uma mercadoria que dá pouco lucro. Por um tempo cheguei a cogitar não fazer mais filmes e nem qualquer outro tipo de arte, mas pensei bem e conclui (pelo menos até agora) que se for pra fazer, tem que ser contra tudo isso, contra a própria arte. É daí que comecei a escrever esse roteiro.

Aí conheci você, o cara que sintetizava toda a minha pira, o cara que se transfigura em sua própria arte e nela, é explorado inescrupulosamente pela “sociedade do espetáculo”, um cara que entende você era o personagem perfeito para este filme, mas aí que o negócio me pegou de jeito, fazer um filme sobre a exploração da miséria pelo cinema explorando a sua imagem seria (e é) uma grande contradição, que me coloca no mesmo lugar do que eu quero criticar. Lembro-me da primeira vez que conversamos e você disse pra mim que não aguentava mais gente que vinha com uma câmera querer fazer entrevista, prometer um monte de coisa e depois desaparecer. Lembro que me senti puramente desconfortável em continuar o projeto, na primeira vez que fui lá onde você morava e expunha suas obras eu senti um constrangimento do caralho, queria fazer o filme, queria te ajudar, pensava na importância do processo e etc, mas ali via que eu não passava de um burguês com mania de caridade.

Não sabia mais como fazer esse filme, aí por um tempo, junto com a Reiko (sem ela isso tudo não seria possível) íamos lá te ver só pra conversar, só pra entender o que estava acontecendo dentro de nós, aí é que comecei a perceber que era você quem sabia que filme que eu queria fazer, suas reflexões sobre essa exploração que você sofreu e toda a merda de viver na rua, o crack, a polícia, os amores, a solidão e a saudade. A sua voz era mais potente do que a minha, sua pintura era muito mais potente que o meu cinema, o filme era seu, não meu, foi aí então que decidimos fazer dois filmes, o que eu já tinha planejado e outro seu, com sua voz, o que você quisesse fazer, com seu olhar, com sua opinião sobre o corte final, mas é claro que a coisa não é tão romântica quanto isso soa.

Teve um dia que fui lá onde você costumava ficar, lembro que quando cheguei suas coisas não estavam lá, aí você disse que o “rapa” levou tudo, das suas roupas às suas pinturas, sei que roubar uma produção artística pessoal e autoral é roubar parte de si, lembro-me do seu olhar, era uma mistura entre raiva e serenidade, um olhar que só é possível para quem já havia passado por isso dezenas de outras vezes, na necessidade de renascer e de reconstruir tudo, lembro ainda que foi no mesmo dia onde ali na rua de trás, um monte de artista ocupou a Funarte por causa do fim do ministério da Cultura, teve cortejo, ciranda e muita disputa interna pra ver quem que tinha mais voz lá dentro. Um mal estar me tomou profundamente, me avassalou por dentro de uma maneira visceral, perdi ali a pouca fé ainda que poderia ter. Na semana seguinte você tinha reconstruído tudo e me mostrou uma pintura que você fez numa porta velha que achou na rua, era um dos seus melhores trabalhos que tinha visto até então.

No meio de tudo isso, eu fui de fato entendendo o que deveria ser a Arte, em sua potencia visceral, mesmo em suas contradições, pra você, o Badaróss nunca passou de um alterego super espetacularizado pela mídia, suas angústias eram mais sutis e profundas do que o estigma de “Basquiat da Cracolândia”, sua pintura de traços simples representava toda a pureza de seus sentimentos que não perpassam pelo mercado e pelas teorias estéticas, e que por isso, podiam ser arte.

E no meio desse rolê ainda fomos pra Petrolina pra você rever sua família depois de 10 anos fora, é claro que documentar isso também seria muito o que a tv faz de forma tão perfeitamente escrota, não é simples só filmar, só dizer a verdade, só deixar as coisas acontecerem, talvez esteja aí o ‘X” da questão, na essência do cinema e de nós, o espetacular está nas entranhas da imagem, suprimir isso é quase impossível, ser honesto no meio disso tudo é um grande desafio, mas o seu norte foi o meu norte, pelo seu coração mergulhamos no “Velho Chico” pra tentar descobrir o que poderia e principalmente, o que não poderia ser. Petrolina, Juazeiro e Sobradinho, um sertão que virou mar no meu universo pessoal.

De qualquer maneira, a grande história sem dúvida não está no filme, ele foi só um pretexto, o processo é o que importou de fato, o processo é o que importa não o produto, a potência disso, portanto, não pôde ser apreendida por uma câmera, e mesmo que quisesse não conseguiria.

Foi uma experiência foda, mudou muita coisa dentro de mim, de fato toda essa experiência me fez ter a certeza de que a arte e o artista em geral são uma grande farsa, você esfregou isso na minha cara sem meio termo, com você aprendi tudo que as escolas de arte que passei deveriam ter me ensinado, mas que obviamente foram incapazes, com você, aprendi o que importa, ou seja, tudo o que não é cinema.

O filme agora é só um resto espetacular, um vestígio de algo maior, um rastro do que foi uma fração de vida, o filme agora é só um resto espetacular de algo muito mais complexo e profundo: os laços que agora nos unem como amigos, como irmãos.

Fecho os olhos, tudo que vivemos (e que nenhum dos nossos filmes enquadrou e estetizou) me parece agora um sonho, um tempo-espaço frutos de um lampejo de lirismo e loucura, uma grande explosão silenciosa e invisível.

Abro os olhos.

A vida continua, é hora de reconstruir tudo novamente.

 

Obrigado mano.

André Okuma

 

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