Por Larissa Paz

Fotos: Kati Horna

Vira e mexe me questiono porque fotografamos, porque mantemos essa tradição de “tirar fatias do tempo”, se sabemos que historicamente: quem era a fotografia na fila do pão?

Peço licença para usar uma questão que li recentemente e que me fez refletir bastante: a competição na fotografia e o seu desenrolar nas redes sociais (os tão almejados Likes – com letra maiúscula mesmo porque o bagulho é loko).

Pensar fotografia é algo por muitas vezes bastante complexo, pois estamos lidando com questões imagéticas, questões que estão arraigadas na consciência humana e no inconsciente coletivo desde nossos ancestrais e que se reverbera em várias instâncias até os dias de hoje, em todos nós. A imagem é nossa primeira mediação com o mundo, seriam como mapas, é a maneira que nos fazemos conhecer e que também nos conhecemos, primeiro através do reflexo da família, depois escola, estado… E por ai vai, mas fato é que, a imagem é uma concepção mental para nos fazer existir dentro do universo visual, até ai beleza, porém surge um mano lá no final do século 19 que resolve congelar uma imagem, isso mesmo, o senhor Joseph, que resolve captar o que teria sido a primeira fotografia registrada por nós humanos, uma chuva de Likes para esse grande senhor! De lá pra cá não paramos mais, gostamos tanto  da ideia que passamos a registrar loucamente, diversas imagens, diversas mesmo, temos dentro desses quase duzentos anos, autorretrato, cidades, planetas, gente morta, teve época que a gente adorava sair nas fotos com nossos queridos falecidos, tem foto de premiações, acidentes aéreos, gente se beijando, foguetes, animais selvagens, paisagem, doenças, manifestações, guerras, deu pra recapitular ai na cabeça bastante coisa né, resumindo, foi coisa pra ca-ra-lho…

Pensando um pouco mais dentro dessa questão, quero destacar uma das minhas fotógrafas favoritas da vida: Kati Horna, que além de ter registrado de maneira singular e visceral coisa pra ca-ra-lho,  era anarquista, se divertiu com os surrealistas  e definia-se como “operária da arte”(é dona do registro que estampa a capa desse texto). Diante disso percebemos como podemos direcionar o ato de fotografar ao que bem entendemos, afinal, somos seres dotados do tal livre arbítrio, o que fotografamos e como fotografamos hoje, só diz respeito ao nosso próprio desejo, ao nosso olhar, ao agraciamento do “instante decisivo”…  Sim, poderíamos afirmar que sim, não fosse à questão que levantei lá em cima: as Redes Sociais! Elas mesmas, que nos mantém conectados 24 horas por dia a tudo o que podemos e não podemos ou não queremos imaginar, é complicado falar de liberdade em tempos que necessitamos tanto da aprovação e reconhecimento instantâneo do outro, o que foi registrado há 80 anos tem repercussão e valorização até os dias de hoje, temos como exemplo a senhora Kati e tantas outras mulheres e homens fotógrafos de sua época e que tem suas fotografias admiradas e reconhecidas a menos de 30/40 anos, pois a fotografia só entra pro hall das aaarrrte por volta dos anos 60, mas ainda hoje não tem uma cadeirinha fixa nesse mainstream … No começo a coisa foi tão pesada, que só pra vocês terem uma ideia, até o vaticano se intrometeu nessa treta, questionando se o bagulho era ou não uma forma de pecado/satanismo… 100or!

Enfim, voltando ao foco da nossa conversa, o que seria fotografar hoje? O Brasil lidera o ranking no consumo de smartphones, ou seja, celulares que possuem câmera embutida e que facilitam registros instantâneos, isso significa que aqui nós gostamos muito ou sentimos muito a necessidade de fotografar as coisas e a nós mesmos e vemos logicamente isso refletido nas redes, na competição por likes, quem ganha mais views e etc. Não critico de forma alguma esse “fácil acesso” ao celular, as câmeras ou a facilidade com que registramos hoje qualquer coisa que se quer, acredito que essa acessibilidade têm-nos tornado espécies de “marchams”, curadores das imagens que queremos guardar e com as quais queremos nos comunicar, de forma rápida, fácil e barata; na real o que questiono é o consumo desenfreado sem reflexão, sem empoderamento do que se vê, sabemos que o sistema se apropria de tudo e fotografar hoje, virou mera mercadoria, mero consumo alienante de nós mesmos e dos espaços que compartilhamos, todos querem estar bem na foto pra postar no insta, todos querem fazer carão em Paris para postar no site faces e causar inveja pra geral e me pergunto, qual o sentido disso tudo?

É isso minha gente, o vaticano abriu as porteira do capetalismo e a fotografia virou mais um produto de lucro, por isso levanto essa questão, para buscarmos uma fotografia mais consciente e consistente, vamos olhar mais com a câmera dos nossos olhos, pois em tempos de fotografia por consumo, fotografar com o olhar é subversão.

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