Hitler Petralha & os Bandeirantes no país da Terra Plana

Por Claudio Cox

Foto: “O último Tamoio”, pintura de Rodolfo Amoedo.

Reza a lenda que o lendário – redundância mais do que poética – Muhammad Ali afirmou
em uma entrevista que daqui a uns 100 anos os livros de história dirão que ele era
branco. Se pá de olho verde. Procurei a dita entrevista e não encontrei – nem procurei
tanto, vai –, mas não importa muito. Ali era um militante da causa preta, foi perseguido por
isso e essa frase estaria totalmente dentro do contexto da sua trajetória. Fácil, fácil.

O que importa realmente nessa suposta frase de Ali e o que me levou a essas mal
traçadas linhas é a ação que ela impele, ou seja, a construção da história que atende
nichos, ideologias e propósitos que não estão comprometidos com a história propriamente
dita, a distorção de fatos pra deixar gente bonita (ou feia) na foto, o famoso 171
intelectual. Caô.

Lembrei dessa parada por conta de uma discussão que surgiu “nas internet” logo após a
passeata neonazista em Charlottesville (EUA) na semana passada e toda aquela coisa
horrorosa. O papo era o nazismo ser ideologicamente de esquerda. Pensei comigo: cêis
tão de brinks, né? Até a conta dos nazi cêis querem passar pro PT, mano? Piada, de
muito mal gosto, mas muito real. E perigosa.

É exatamente assim que uma distorção esdruxula dessas ganha “vida”, começa a virar
“verdade” na boca de Zé povinho das ciências sociais da revista Veja. Não estou nem
entrando no âmbito da esquerda/direita, melhor/pior, Corinthians/Palmeiras, quem matou
mais ou menos, o foco aqui é a desconstrução histórica, só.

É por essas e outras que quando você vai estudar História na faculdade, descobre uma
coisa linda chamada historiografia. Vagabundo não pode sair por aí descendo a caneta
nos fatos, chamando Jesus de Genésio sem embasamento nenhum. Quer dizer, poder
não pode, mas faz. Daí surge a historiografia, um estudo sobre o que já foi escrito sobre
a História. Ah, muleke! No papo reto, é tipo a corregedoria do historiador.

A História do Brasil está cheia de casos interessantes neste sentido, interessantes para
análise, claro, porque o efeito que essas construções causam não são, nem de longe,
nada interessantes, definem quem manda, quem obedece, quem faz e acontece.

Estatua do Bandeirante João Ramalho em Santo André – SP

Exemplo clássico são os bandeirantes, que a elite paulista – no final do séc XIX, os new
richs on the block por causa do café – na ânsia de uma maior representação na política
nacional, tratou de transformar em heróis do Brasil. Dinheiro não é tudo, mas é 100%,
como diria o filósofo cearense.

Na real, os bandeirantes eram piratas do sertão e não saíram por aí desbravando terras a
troco de nada, o barato deles era ouro, escravos e putaria, e também não eram aqueles
seres bem-vestidos de chapéu e botas de couro que aparecem nos livros de história
chapa branca, eram selvagens que andavam descalços, todos emulambados e tocavam o
terror na jurisdição dos índios.

Mas a ideia era botar na conta dos paulistas a grandiosidade do país, os desbravadores
da porra toda, a locomotiva do país. Então desenterraram esses figuras – que estavam
mais do que enterrados na história – deram uma repaginada no look, encobriram os B.O.
mais zuados e pronto. Esse “espírito desbravador” paulista foi alimento pro golpe militar
que resultou a nossa república (Ó!) e depois como argumento pra botar o povo de bucha
de canhão na “revolução” de 1932. Vai venon.

A história da nossa querida Satãdré também foi construída na cola dos paulistas, ou seja,
quem vai querer saber de uma cidade que nasceu na beira de uma estação de trem em
meados do século XIX se podemos ter um conto de fadas do português bandeirante com
uma índia (mais umas 40 extras) logo no começo da colonização do país?

Enfim, Sabe aquela conversa do Barba Branca, ponta esquerda da seleção de 1848, da
história se repetir como tragédia e depois como farsa, então. Na era da ultrainformação
esfarrapada, as dimensões de uma conversa fiada dessa podem gerar danos
catastróficos, ainda mais numa sociedade onde assistência social é sinônimo de
comunismo.

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