Por Claudio Cox

Fotos: divulgação.

1973 foi a primeira letra que fiz pro Giallos, na verdade não era pro Giallos porque a banda não existia ainda, era prum projeto do Flávio e do Luiz do qual fui convidado pra fazer uma fita. Essa música foi o embrião de tudo o que banda iria ser, do som aos cartazes dos shows, tudo já estava ali, na caruda. Daí foi só ladeira abaixo, o flerte com cinema podreira, com as “artes proibidas”, nome da banda, sexo, mentiras e videotapes…

Lembro que estávamos pirados com um exploitation sueco chamado Thriller – A Cruel Picture, estrelado pela musa máxima plus, Christina Lindberg. Bateram pra gente que esse filme tinha sido a fonte de inspiração pro Tarantola escrever Kill Bill, aí fudeu geral. O filme era pesado pra caraio, sexo explícito, drogas pesadas e violência, muita violência. Lançado em 1973 – juro que esse detalhe foi só uma linda coincidência – chegou a ser proibido em vários países na época, imagina o baque.

A personagem feminina de 1973 foi meio que inspirada na Madeleine, a justiceira da película interpretada pela Christina. O contexto da letra era uma ditadura futurista daquelas bem félas mesmo, saca?! Na fita, um casal de jovens rebeldes viaja no tempo e acaba no ano de uma outra ditadura, 1973 – a que eles acreditam ser o “episódio que deu origem a série”. Uma sci-fi tupiniquim bem da sem vergonha mesmo, sem medo de ser feliz.

A partir dessa sinopse fui escrevendo outras letras e amarrando uma espécie de roteiro em volta de 1973. Vieram outros personagens como o anti-herói revolucionário Ramirez Santiago, uma droga sintética chamada Santo Diesel e outras paradas, tudo isso usando referências do cinema exploitation, boca do lixo, Sala Especial, rock sujo até o osso e essa porra toda. O resultado foi o ¡CONTRA!, nosso primeiro play.

 

É óbvio que todo esse universo degenerado, sex and violence, foi parar no material gráfico da banda também. Era cartaz de show, camisetas, capa de demo e o caraio a quatro. O levante giallístico criado a partir de 1973 tinha a clara intenção – pelo menos pra nós parecia clara na ocasião – de apropriar-se de artes que naquele momento histórico citado nas músicas tinham sido classificadas como subversivas, e nessas criar a nossa própria subversão, tocar o terror pra valer. Tipo antropofagia de beira de estrada, saca?! Bem isso! Um afronte a uma sociedade nas rédeas da estupidez.

Quando essa porra toda foi escrita, há 7, 8 anos, juro que nem de longe imaginaria que num futuro nada distante aconteceria uns lances semelhantes de patrulhamento intelectual tão escancarado assim, igual à da nossa sci-fi, bem pertinho da gente. Se bem que não faz muito tempo tivemos um cartaz de um show nosso “proibido” com base na mesma linha de argumentação que esses MBL da vida fizeram na exposição lá de Porto Alegre, ou seja, a coisa já estava no ar tipo vírus zumbi.

Agora, uma coisa é toda essa capivara dada na bandeja e outra é o lance subjetivo da parada. Filho da puta que tem preguiça de pensar sempre existiu e sempre vai existir, mas nem por isso vamos facilitar as coisas. ¡CONTRA! é um disco amplo, vai além das referências, tem um senso de humor incrível, mas cada um faz o que quiser com o que está proposto ali, até querer proibir. Arte é provocação, é dedo na ferida, é questionamento, fora disso é novela das 8. Nada contra a novela das 8, nem a favor. Foda-se! Mas eu quero que continuem fazendo novela das 8 até o fim da humanidade.

A gente é muito otário. 2017, porra nenhuma.

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