Por Marcelo Mendez.

Fotos: reprodução/arquivo Nino Brown.

Em uma tarde de 1994, em uma loja das grandes Galerias em São Paulo, Nino encontra Tony Tornado.

O assunto das quase duas horas de conversa é uma das paixões em comum de ambos, James Brown. Ao término da prosa, Nino pede para Tony autografar os discos que havia comprado e na dedicatória vem o nome que ficaria pra sempre:

“Um abraço para o amigo Nino Brown”

Seria uma boa linha para uma história bonita, como de fato é. Mas antes de Nino virar Nino Brown, batizado pela lenda Tony Tornado, muita coisa aconteceu, muito funk foi dançando e muitos foram os salões que Nino andou.

Sendo assim, a matéria que segue aqui em Estranhos Atratores, pega um role no tempo para contar do começo dessa história toda, de quando os Bailes que Nino andou, ajudaram toda uma geração afirmar suas identidades e sua fé. Vamos falar de uma das histórias mais ricas dentro da cultura periférica Negra dos anos 80:

Os Bailes Black de São Bernardo, no abc Paulista

Foto: Sociedade Amigos do Bairro do Calux, a sedinha, onde tudo começou.

O Brasil das Periferias na Ressaca da Década de Chumbo

A vida era muito pobre no Jardim Calux, em São Bernardo, na virada dos anos 70 para os 80.

Em meio a toda recessão econômica, na ressaca de uma Ditadura Militar que já se esvaía em uma canseira moral, o País era um abismo de desemprego, inflação e pobreza. A realidade era dura, os sonhos eram curtos e tudo era muito difícil.

No mundo que estamos falando, as coisas não eram high tech e as informações não chegavam até as pessoas através de um clic de mouse, de um buscador da internet. Para se ter acesso as coisas, era necessário ter dinheiro e tempo. No caso de Nino e de seus iguais, não havia como ter nenhum dos dois:

“Morávamos em uma favela e naquelas condições, não tínhamos acesso a moradia, a saneamento básico, luz elétrica, nem um endereço. As opções para mudar isso ficavam restritas ao mundo que a gente tinha a nossa volta. Foi aí que começamos a se ligar no que rolava ao nosso redor”.

Do horizonte que era possível de ver, Nino começa então a freqüentar as Associações de Moradores dos bairros de São Bernardo. São esses lugares que farão a diferença nessa história toda. Ali, com as condições mais elementares que se possa imaginar, começa a nascer uma das mais ricas histórias da cena cultural do Movimento Negro no Abc.

Era o começo dos Bailes Black de São Bernardo.

11 De Novembro de 1978, o Dia da Benção do Poderoso Chefão do Funk

“No palco do Palmeiras, vi James Brown de pertinho. O ginásio lotado, sem caber nenhuma agulha, cheio de Negros como eu, felizes, reluzentes. E quando o JB’S, banda do Brown, mandou os primeiros acordes minha vida mudou. Vendo aquele homem, com aquele respeito pelo público, por mim, pelos meus, decidi que aquele seria meu caminho. Saí do Palmeiras cheio de vida, de força, de vontade de transformar as coisas”

Depois de conseguir com muita luta, assistir ao histórico primeiro show de James Brown no Brasil em 1978 Nino Brown já estava pronto para começar a transformar tudo que entendesse que necessitava dessa transformação. O impacto causado pelo show do Mestre nele e nessa rapaziada da periferia de São Bernardo foi imenso e então, da maneira como era possível, Nino e os seus, seguiam os preceitos do Papa do Soul.

“Não tinha grana para a gente se vestir como queríamos então usávamos a criatividade. O meu sapato de duas cores, eu mesmo pintava. As garotas faziam seus vestidos nas costureiras dos bairros, compartilhávamos nossos sons e organizávamos nossas festas. Nisso, a presença das associações de moradores, foi fundamental”

Sede do Calux no Jardim Calux, Piraporinha, Baile da Vila Vivaldi, Sede da Vila Rosa, Sedinha do Jardim Lago, Olaria no Baeta Neves, foi nesses lugares que tudo começou.

Era ali que a juventude Negra se reunia para dançar Original funk, onde tocava Tim Maia, Jorge Ben, Cassiano, Jimmy Bo Horn, Kurtis Blow. Em noites regadas a muito som, muita dança, muita energia, que se fez toda a afirmação de identidade e fé daquela geração que lutava por ter o seu canto, seu espaço, suas festas.

Foto: Baile da Vivaldi.

“No começo era bem legal. Antes de tocar os discos, conversávamos com a rapaziada para explicar quem era o James Brown, a importância dele, para começar formar uma consciência mesmo e o resultado era muito bom. Os bailes eram formados por funks, onde equipes como o Funk Cia se apresentavam dançando, e baladas, as “lentas”. Era muito legal aquele começo”

Anos 80, o Surgimento da Cultura Hip Hop e o Black toma conta do Abc

Claro que a repressão era forte naquela época, como, aliás, ainda é hoje em dia.

Todavia, a chancela de ser uma Associação de Moradores de Bairro a abrigar os bailes, criava um certo armistício para que aqueles jovens Negros pudessem seguir com as festas. Com isso, as coisas começam a criar corpo, a rapaziada das outras cidades do Abc começam a chegar em São Bernardo e então, todo abc passa a se falar através dos bailes.

Espaços surgem em Diadema, São Caetano, Mauá e em Santo André, surge o seminal Kaskata Club, que depois passa a se chamar Club House. Um salão totalmente voltado para a Musica Negra e para o então imberbe Rap.

“Não tínhamos no começo, a informação do que eram os quatro elementos, mas ali por volta de 1984, 1985, já sacávamos que isso era uma coisa forte e então começamos a nos organizar para entender o movimento. O Hip Hop chega para organizar a cena Black e isso se reflete nos bailes também.”

Principal centro difusor de informações culturais, de transformações sociais das periferias, rapidamente os bailes de São Bernardo absorvem o Hip Hop, acolhem o Rap e uma nova mudança chega para elevar os garotos dos Bailes Black à níveis jamais imaginados…

Zulu Nation;  Mundo Negro é Aqui!

Em 1994 Nino escreve uma carta endereçada ao movimento Zulu Nation, com o intuito de melhor entender o que estava acontecendo no mundo do hip hop gringo, àquela altura, contaminado por guerras entre gangues e afins.

A ONG Fundada pelo DJ Afrika Bambaataa que tem como princípio as bases do hip hop: paz, amor, união e diversão, além de organizar palestras e arrecadar fundos campanhas Anti-Apartheid (Anti-Racista), entre outras ações, passa a interessar demais para Nino e a resposta de Bambaataa vira uma relação de proximidade com o nosso amigo. Nascia assim a Zulu Nation Brasil, sob a égide de Nino Brown.

Foto: Nino Brown 1978

2017 e o Baile que Jamais Acabará

Muita coisa mudou.

Com as ferramentas disponíveis para se informar e se conectar, o mundo é outro.

Os Jovens Negros não vão mais aos bailes das poucas Associações de Moradores que ainda existem, não tem mais muito tempo para olhar para sua quebrada. O que tem para eles é o ônus da luta eterna para se manterem vivos, se equilibrando na manutenção dos empregos, convivendo com a violência dos preconceitos e da repressão que a cada dia que passa, fica mais agressiva e fatal.

Mas se tem uma coisa a favor desses jovens nessa luta, é o legado que fica das gerações passadas que afirmaram suas identidades em bailes de funk e soul pelas periferias de São Bernardo.

Nino Brown é hoje, uma referência Nacional da cultura hip-hop, um das pessoas sempre consultadas quando o assunto é Cultura e Movimento Negro. No clipe da música “Senhor Tempo Bom” de Thaide e Dj Hum, ele é homenageado pela dupla de rappers. Sua trajetória de lutas, suas tantas frentes de batalha na vida, serão retratadas em um filme de nome “Soul Black, Soul Dance”, um documentário, lançado no MIS em São Paulo.

Não temos mais os Bailes Black acontecendo nas periferias, mas decerto, ele existe ainda em todos os corações de quem fez parte dessa história, existe nas cucas de quem riscou o chão para dançar em noites de break e funks alucinantes, como Nino fez e como sempre seguirá fazendo. Tem que fazer mesmo.

Em 1988, o samba enredo escrito por Martinho da Vila para Vila Isabel, fez a escola cantar no refrão que “Essa Quizomba é Nossa Constituição”. Como os Bailes Black, nossa constituição.

Porque eu só acredito nos Deuses que dançam…

“Senhor Tempo Bom”, Nino Brown, Nelson Triunfo e Funk Cia sendo homenageados…