Por Fhoutine Marie

Foto: divulgação/HBO.

Contém SPOILER

“Os deuses não têm misericórdia, é por isso que eles são deuses” (LANNISTER, Cersei)

Na noite de ontem a HBO exibiu o último episódio da sétima temporada de Game of Thrones, um dos maiores fenômenos midiáticos desta década e fonte de debates infinitos nas redes sociais. Agora só em 2019 saberemos o fim da saga que conseguiu misturar de forma bem-sucedida disputas políticas, cenas de batalha, amores clandestinos, mortos-vivos e dragões. Diferente das temporadas anteriores, esta foi mais curta (apenas sete episódios) e tomou um rumo mais previsível (confirmando várias teorias debatidas por fãs em blogues e fóruns virtuais).

A temporada também foi marcada pela consolidação de Cersei como rainha da porra toda, mostrando no decorrer da trama que sabe muito bem jogar o jogo dos tronos e que vai dar trabalho para todos quem tentar lhe derrubar.  Além disso de usar os melhores figurinos da história dos Sete Reinos, Cersei é a personagem que ainda mantém o foco da trama na política enquanto o restante do enredo optou por um caminho mais palatável de heroísmo, fantasia e romance. Uma mulher inteligente e implacável que apesar de não ser pior que ninguém ali é apresentada como a grande vilã da trama. Este texto é uma reflexão sobre poder, violência, papéis de gênero e machismo e também uma defesa daquela que se tornou minha personagem preferida ao longo da saga repleta de mulheres incríveis.

Desde o começo da história Cersei é uma personagem por quem não se poderia sentir a menor simpatia. Além de manter uma relação incestuosa com seu irmão gêmeo, é fria, arrogante, vingativa e não se importa com ninguém que não seja a própria família. É por conta dela que o heroi da série até aquele momento, o honrado Ned Stark, irá literalmente perder a cabeça. Mas as maldades de Cersei não param por aí. Ela despreza publicamente o irmão mais novo, o brilhante e carismático Tyrion; tortura psicologicamente a meiga e ingênua Sansa Stark; é insensível quando seu irmão-gêmeo/amante, Jaime quando este retorna de uma longa jornada que incluiu uma guerra, ter sido feito prisioneiro duas vezes e tido a mão decepada. Ela é cruel sem razão aparente com os belos irmãos Margery e Loras Tyrell, contra quem conspira para que sejam presos e julgados por uma espécie de Inquisição que ela mesma ajudou a criar.

Como se sabe, toda essa espiral de maldades acabou sendo revertida contra a própria personagem, que ao fim da quinta temporada se torna vítima do fundamentalismo religioso julgava ser politicamente útil. A cena em que Cersei desde as escadas do Grande Septo de Bailor e caminha nua enquanto é hostilizada pela multidão para mim é uma das mais violentas da série, porque apresenta a violência pública contra uma mulher cujo caráter não aprovamos não como algo “merecido”. A ideia de que quem pratica o mal finalmente é punido aparece em diversas cenas, como nas mortes de Joffrey, Ramsey, Tywin e toda aquela renca de gente que a Arya matou. Porém a punição de Cersei não envolve morte ou sangue, mas a exposição de seu corpo nu e ficar a mercê dos escárnios e escarros da multidão. Remete à caça às bruxas, à tortura pública.

No príncipio eu detestei a personagem. Achei arrogante e achei burra. Porém, vou confessar (com vergonha) que a minha impressão acerca da suposta estupidez da Cersei vinha do modo como os próprios parentes (todos homens) se referiam a ela. Em uma cena em que ela diz a Tyrion que ele não é tão inteligente quanto parece, este rebate: ainda assim sou duas vezes mais inteligente que você. Em outro momento, quando questiona o pai, Tywin, sobre a razão de não ter voz ativa na política dos Sete Reinos, ele diz: não é porque você é mulher, mas porque você não é tão inteligente quanto pensa.

Não precisamos viver em uma sociedade fictícia e nem na Idade Média para saber que as mulheres frequentemente tem sua inteligência questionada/subestimada nos espaços públicos. Quem nunca ouviu que mulher não serve pra ser chefe porque é muito emotiva, que os homens são mais racionais? Quantas mulheres são preteridas no mercado de trabalho por conta da maternidade ou criticadas pelas próprias famílias por terem outros interesses além da maternidade? Que ouvem que não deveria estar trabalhando/militando/na balada/estudando/namorando porque são mães?

Cersei é nobre e nasceu na família mais rica e influente de Westeros, porém sua família não a considera uma pessoa que poderia ter voz na política. Seu papel é ser moeda de troca e gerar herdeiros. Então quando começa a governar como rainha regente ela faz algumas bostas mesmo, porque ela não recebeu educação que lhe permitesse se tornar uma estrategista do porte de seu pai e irmão mais novo. Ela foi criada para casar e ser mãe e assim como as mães da vida real ela também é criticada por pessoas que acham que poderiam fazer melhor. Tywin e Tyrion responsabilizam Cersei pelo comportamento sociopata de Joffrey, questionam sua capacidade de controlar o filho adolescente. O próprio Joffrey manifesta o desprezo pelas mulheres contra a mãe, quando ao se recusar ouvir seus conselhos sobre política diz que a ela que mulheres inteligentes fazem o que as mandam fazer.

Tanto no livro quanto na série a indignação da personagem com a misoginia e os papeis pré-determinados de gênero é evidente. Nos capítulos contados a partir de sua perspectiva a personagem lembra que na infância o tratamento destinado a ela e Jaime era o mesmo, até que com a chegada da puberdade ele ganhou uma espada e treinamento para ser um guerreiro, enquanto ela passou a ser educada para se tornar esposa. Nesse contexto a relação incestuosa adquire sentido como a única forma de recusa que lhe é acessível. Ela não quer ter os filhos de Robert, um homem que a despreza e humilha publicamente para atingir seu pai, além de estuprá-la constantemente. A única coisa que ela pode controlar é de quem são os filhos que o protocolo social a obriga a parir.

Na série, a cena mais emblemática da indignação em relação a este costume é quando ela recusa um segundo casamento arranjado, ameaçando revelar a todos sua relação com Jaime. Cersei é motivada em alguma medida pelo seu desejo de poder. Mas, muito mais que isso, ela não quer sair de perto de seu filho mais novo, Tommen pressentindo que não seria uma boa ideia deixa-lo sob influência dos Tyrell – e ela não estava errada, pois, como já sabemos, foram os Tyrell que mataram seu filho mais velho.

Além da revolta em relação aos papéis de gênero, a maternidade é uma questão importantíssima para compreender a personagem. É algo que mesmo seus inimigos reconhecem nela: Cersei ama seus filhos e é capaz de tudo por eles. É por causa deles que ela trama a morte de Robert Baratheon.  É tentando salvar Myrcela que ela envia Jaime a Dorne em uma missão potencialmente suicida. É a perda de Tommen que a transforma numa governante implacável. É por conta da gravidez revelada no final da sétima temporada que ela consente em fazer um trégua com os inimigos. Se a maternidade era uma imposição social, Cersei faz dela sua força e sua esperança de reconstruir uma família dilacerada a partir de si mesma.

 Ouça ela rugir

 Tyrion matou o próprio pai e estrangulou uma mulher e continua sendo um personagem popular. Jon Snow foi P2, traiu o povo da mulher que amava e enforcou uma criança, mas dá o Trono de Ferro pra ele. Daenerys prega pessoas em cruzes, queima os inimigos vivos e tá tudo bem. Mas a Cersei é do mal e acabou.  Não importa que ela tenha perdido o pai, os filhos, tenha sido humilhada publicamente, que ela tenha passado anos num casamento abusivo. Isso é preocupante, porque revela que estamos dispostos a ser tolerantes com a crueldade praticada por aqueles cuja narrativa coloca do lado da verdade e justiça. O melhor exemplo disso é a morte de Ned Stark.

Ned sabe que Robert mataria Cersei e as crianças caso soubesse que não era seu pai biológico. Mas ele decide contar mesmo assim, porque a broderagem falou mais alto e porque essa geração de Starks não é lá muito inteligente. Ned tomou uma decisão política desastrosa por conta própria e pagou por isso com a vida. Não me digam que ele não é um cara “da política” porque a família dele é governa o Norte há gerações e ele próprio já estava na função desde que o Robert venceu a rebelião. Diante da chantagem bem que Cersei tentou avisar: quando você joga o jogo dos tronos você vence ou você morre.

Ned morreu porque não pensou no bem coletivo, morreu porque achou que era mais importante expor uma mulher para o amigo alcoólatra, agressor, mulherengo, conivente com infanticídio das crianças Targaryen e que mandou matar uma mulher grávida (a Daenerys, pra quem não lembra) que evitar uma guerra. Lembrando que tudo o que ele teria de prova era a cor do cabelo (!!!), que se fosse infalível no mundo de Westeros era pro Jon Snow ter cabelo loiro-branco.

Falar de Cersei requer que falemos de Jaime, que começa a história como um cretino que não parece ter o menor problema de consciência por ter assassinado o rei que havia jurado em proteger, o que lhe confere a apropriada alcunha de Regicida. Bonito como o Príncipe Encantado de Shrek, Jaime é capturado em uma batalha, libertado por que Catelyn Stark teve uma ideia idiota e novamente capturado, junto com Brienne de Tarth. A redenção de Jaime começa quando ele, na mesma noite, salva Brienne de sofrer um estupro coletivo e tem a mão direita decepada por um de seus captores pra deixar de ser playboy. A partir de então surge o Jaime “honrado”, palavra muito utilizada para descrever personagens da saga que possuem pouca inteligência e alguma consciência.

Jaime confessa a Brienne que matou o rei Aerys II para impedir que este destruísse Porto Real e para não ter que matar o próprio pai – que a essa altura havia entrado na cidade com suas tropas e estava matando geral os tais inocentes que Jaime queria proteger. E claro, havia Cersei, por quem Jaime é obcecado e  usa como desculpa para seus próprios crimes, como atirar uma criança da janela. Até Olenna Tyrell, a Senhora dos Espinhos coloca tudo na conta de Cersei e trata Jaime como um simples joguete da irmã.

É importante lembrar que o apaixonado Jaime, em uma cena que causou muita discussão na Internet estupra Cersei diante do corpo do filho morto. Entretanto, o personagem continuou sua redenção que tem como ápice a morte de Lady Olenna, que sob a  insistência de Jaime foi polpada da morte pública e sangrenta e pode partir chiquérrima tomando uma taça de vinho envenenada enquanto pratica sua última maldade, revelando que foi ela que matou Joffrey. Jaime segue sua trajetória de redenção como homem “honrado” enquanto Cersei segue isolada como única mulher vilã da saga.

Talvez o que torne Cersei tão insuportável seja o fato de que ela não busca redenção e nem se tornou humilde depois de tudo o que lhe aconteceu. Ao contrário, a cada temporada ela se torna mais forte, transcendendo o destino que lhe havia sido traçado, bem como suas tragédias pessoais. Numa narrativa que caminha para um final fantasioso e água com açúcar, Cersei nos lembra que o poder político é feito de alianças, traições, dinheiro e força das armas  e não por bondade, carisma ou predestinação. E eu tenho pena do Rei da Noite se tentar mexer com ela.

*Fhoutine Marie é cientista política e escreveu este texto depois de debates muito sérios com suas amigas Renata Corrêa e Hires Heglan.

2 thoughts on “Em defesa de Cersei Lannister – Fhoutine Marie

  1. Muito bom, também fui gostando da Cersei com o passar do tempo, ótima personagem, com muitas nuances! A série foi afundando na medida em que se afastava dos livros, mas tomara que aconteça um milagre e a série volte a ser boa e não termine como um novelão qualquer.

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