Por Marcelo Mendez

Fotos: arquivo pessoal de Manoel Barata

O mundo anda tenebroso para se cometer o Jornalismo.

Tempos escuros e sombrios onde a poesia mofa, o verso recrudesce por idiotices convictas de quem nada quer a não ser odiar e emburrecer a cada segundo que passa, a cada minuto que respira, a cada chance que sobra a esses seres para serem tão somente estúpidos.

A nova ordem no Brasil é a idiotice!

Todavia e só para variar um pouco ca estamos nós na contramão de tudo. Queremos criar, produzir, respirar e ora vejam vocês que abusados somos; Queremos pensar!

Assim chego para minha estréia em Estranhos Atratores.

Venho para contar as histórias das pautas que vocês não lerão por aí. Venho para apresentar os sons que embalam as vidas nas beiras do Rio Tamanduateí, chego para contar histórias que se ouvem nos becos escuros da cidade, para falar dos amores possíveis que tentam sobreviver por entre a bruma de enxofre e gás carbônico que caracteriza o cheiro de fumaça petroquímica da vida em Santo André. Bem vindos, leitores:

O estranho jornalista vem para ser mais um atrator!

 

 O Punk que ecoa na Serra do Barato…

A idéia era cometer o jornalismo para começar a coluna. Dentre algumas opções que tinha, aceitei o convite das amigas Márcia e Carol para irmos até o festival de inverno de paranapiacaba. Um barato…

A cidade encostada na Serra é uma espécie de oásis na loucura urbana da selva triste de aço e concreto. Paranapiacaba tem seu próprio tempo, suas idiossincrasias, seu clima e sua onda. Mas daí então tinha um Festival e as coisas geralmente mudam em circunstâncias como essas e no dito festejo em questão a coisa não fugiu a regra.

Tinha la um espaço voltado para os tais de Food trucks com toda a gama de seus preços absurdos e todas as afetações, tinha bar com fila de espera, mas também tinha musica, tinha buteco, tinha palco, tinha vida. A gente escolhe o que nos apetece e no meu caso, escolhi cobrir o show do DZK e porque? Oras…

Formado no arroto do final da ditadura militar, na ressaca que era o Brasil de 1982 em 35 anos de estrada o DZK passou por tudo que se pode imaginar. Teve milhares de formação, teve crise, teve desemprego, teve recessão, plano Collor, URV, real e o DZK o que fazia? Cometia o rock and roll.

“O Dzk começa em 1982 para tocar no festival “Começo do fim do Mundo” no Sesc Pompéia com a Vera no vocal, Bozo na guitarra, Bafo no baixo e o Makarrão na bateria. Na época eu cantava na banda Desespero, só fui entrar no DZK em 1988 e estou aqui desde então” – Conta Barata, vocalista da banda.

Falar com Barata justifica a minha escolha pela pauta. Metalúrgico, Aposentado, Pai de Família, avô e punk; No colete de rebite e no bico de seu coturno, rola a história de um tempo e de uma geração que ninguém até aqui apareceu para contar.

“Eu sou de um tempo em que os lugares para tocar eram poucos. De fazer show em piquete nas greves em portas de fábrica, de correr de tiro em treta com Carecas, de escapar de porrada da policia. E mesmo com tudo isso, trabalhando , ralando para sobreviver. Se isso não é a resistência, então não sei o que é…”

A Catarse necessária…

Chega a hora do show. Na escola onde o Coletivo Rock Abc montou palco para diversas bandas se apresentarem, o DZK se prepara para subir ao palco e Barata se despede de mim com a promessa de uma cerveja depois de tudo que rolar. Tudo topado e a coisa começa. Ou quase…

Tudo aconteceu durante a apresentação do DZK. Queda de energia, atraso, problemas técnicos e tudo que faria uma banda comum desistir. Mas aqui falamos do DZK, falamos de punk rock, falamos da fúria em três acordes e da resistência.

Na raça, a banda botou o povo pra chacoalhar ao som de sons que são clássicos nas periferias do abc. “Crianças Abandonadas”, “Restos de Guerra”, “Marquizes”, todas cantadas a plenos pulmões por uma galera extasiada, que nem de longe se preocupou com nenhum dos problemas que relatei acima.

O que vale é ouvir o DZK…

“Cara, eu não me sinto representado por muita coisa na vida. Mas com o DZK sim, aí rola, aí tem essa identificação de cantar o que eu vivo. Por isso to aqui, o DZK é a banda da quebrada, onde eles tiverem eu vou” – Me contou, Renato, 27 anos, trabalhador do telemarketing.

Os 50 minutos de catarse do show terminam. A noite cai e o frio chega a Paranapiacaba.

Já não rola mais os agitos dos Food Trucks, o burburinho do festival acaba e a noite na serra é habitada por jovens vestidos de jaquetas de couro, calças esganiçadas e coturnos. A caminhada é apressada até a saída da cidade, a impressão é que nada mais havia para se fazer ali.

Depois de um show do DZK nada resta a ser feito. Fomos para o carro e voltamos para a cidade dura. Na saída olho para a cidade que fica e penso que outra vez eu volto.

Quem sabe na próxima catarse oferecida…

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