Por Rogério de Campos

Foto: culto ao corpo na Itália fascista – 1923/24. Wikipedia

Há muitas maneiras de se tornar um fascista. Nos anos 20, o Duce conseguiu, ao mesmo tempo, recrutar camponeses que odiavam o cosmopolitismo das grandes cidades e modernistas que desejavam eliminar os restos da mentalidade rural que atravancavam a estrada rumo ao futuro. Apesar dos regimes fascistas serem o chiqueiro ideal para os gorilas, pilantras e facínoras toscos, muitas pessoas inteligentes e algumas até gentis foram seduzidas. Ezra Pound, Heidegger, Celine… a lista dos inteligentes abestados é tristemente longa.

Nem mesmo a formação de esquerda bastou como antídoto. Alguns esquerdistas escorregaram aos poucos, feito lesmas, da esquerda para a direita e de lá para a extrema direita. Borboletas pacifistas se recolheram ao casulo da isenção e saíram de lá metamorfoseadas em lagartas ferozes. Antifascistas sinceros, exasperados com a frouxidão dos partidos de esquerda ante a violência fascista, montaram milícias autônomas do movimento operário, perderam a direção nas brigas de rua e foram se militarizando até chegar ao ponto em que pareceu ser apenas um detalhe o abandono da bandeira vermelha por uma camisa negra. Da mais moderada social-democracia aos extremos do anarquismo, talvez não haja corrente da esquerda que não tenha fornecido involuntariamente voluntários para as hordas fascistas.

Enfim, as origens são diversas e por isso os fascismos surgem em cada país com algumas características distintas. A constante inicial talvez seja o desprezo aos políticos transformado em ódio a qualquer forma de democracia. Mas, com o passar do tempo, os diversos fascismos vão perdendo as distinções, vão ficando todos iguais. Aqueles que eram ateus e até militantes anticlericais, passam a se anunciar como defensores da civilização cristã. Aqueles que eram antirracistas passam a notar que “veja bem… afinal… não se pode negar que existem diferenças entre as raças…”, antes de mergulhar na xenofobia. O antissemitismo mostra a cara. O humor desaparece, resta apenas um sarcasmo rudimentar. Dandies se deixam fascinar pelos uniformes, monumentos à virilidade. Apaixonam-se pelo machismo. As mulheres fascistas são mandadas para a cozinha. Os fascistas assumidamente gays são defenestrados. Os povos vizinhos passam a ser vistos como presas. E a impaciência com o debate democrático transforma-se em fúria assassina.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *