Por Marcelo Mendez

Fotos: reprodução.

De um lado era a Otis elevadores, do outro, Rhodia Química.

Separados por um rio absurdamente poluído, podre, desbarrancado e fétido, a cidade era o seu punhado de fábricas, todas habitadas por tornos, fornalhas, prensas, motores e outras máquinas. As vidas eram todas voltadas para elas, às máquinas.

E ao redor disso tudo havia pessoas…

Santo André em 1981 não tinha muito tempo para olhar para essas pessoas. Às beiras do Tamanduateí, pouco valia pena pensar em quem insistia em sobreviver. Mas se insistia…

Não havia shoppings, não existia o trólebus ainda, a Rua Coronel Oliveira Lima não tinha cobertura, alguns cinemas exibiam com um considerável atraso, filmes como Superman, Império dos Sentidos e umas outras pornochanchadas. Nada havia para se fazer, nenhuma opção de lazer era pensada para quem ousava querer isso.

Às margens do esgoto aberto que rasgava a cidade, tudo era negado.

E como sempre acontece nesses casos, a negação gera a revolta.

E de toda revolta, de toda a rebeldia necessária, nasce o rock and roll em Santo André. No meio de toda a efervescência da música brasileira da época, é na fúria plena de quem vive na miséria dos prazeres, que a banda Corte Marcial chega para fazer parte dessa história.

Diferente do monstro da lagoa que emergiu na música do Chico Buarque, de dentro do rio Tamanduateí, quem surge é o punk rock, e quem chega para entrar para história da Cidade é a banda Corte Marcial.

Aqui, caro Chico, o monstro é outro…

Garotos Bons dizem Amém; Garotos Punks Formam uma Banda

“Gostava de música. Eu era um moleque completamente fascinado por Earth Wind And Fire, O’Jays, Bee Gees e toda aquela cena da Black Music que rolava na virada dos ano70 para os 80. Tinha muita vontade de fazer alguma coisa em música, mas não sabia exatamente o que. Até que no SENAI, no curso onde estudava conheci o Fernando Guerreiro, ele me falou dos Ramones, e então a coisa toda finalmente começou acontecer” – Marcelo Mazucatto, Baixista do Corte Marcial.

Nunca é fácil precisar o momento em que uma banda de punk rock começa as suas atividades. Quando falamos do Brasil de 1981, tudo fica ainda pior. Mas é nesse caldeirão de enxofre quente e cavacos de tornos, que começa a aventura do Corte Marcial.

Marcelo Mazucatto e Fernando Guerreiro seguiam sua sina no curso profissionalizante do SENAI.

Àquela altura da vida, naqueles tempos, não restavam muitas outras coisas para jovens na casa dos 16, 17 anos fazerem. Ambos conheciam Rene de França, que já gostava de tocar, que tinha algumas idéias, já foi assumindo a guitarra e todos, naturalmente conheceram o Buba.  A partir de então, era meter a cara e cometer o rock.

Passos de Coturno, Riffs improváveis e a Vida em Três Acordes

 “Começamos a montar o repertório. As letras, falavam da repressão policial, da fome que sempre assolou e até hoje assola uma boa parte do mundo. Havia uma ânsia em botar pra fora o que sentíamos e então, saímos falando sobre vários assuntos que até hoje são atuais, como o desemprego, fome, miséria, repressão, desigualdade. O Corte Marcial era uma banda antenada com o mundo, mas também com o que estava a nossa volta.” – Conta Buba, vocalista da banda.

Mesmo com todas as dificuldades da época, o Corte Marcial deu o seu jeito, para cometer o rock. Com Buba na Voz, Marcelo Mazucatto no Baixo, Renê de França da Guitarra e Fernando Guerreiro na bateria, passaram por cima de todos os problemas e foram atrás de sua sorte. Surgiram os contatos com os parceiros, a possibilidade de um esforço conjunto para queimar uma coletânea.

“Foi com os caras do Hino Mortal (Outra banda lendária, do punk rock andreense…) que a gente conseguiu fazer nosso primeiro registro. Um amigo deles descolou um estúdio, bem caseiro mesmo e por lá, o Corte Marcial gravou pela primeira vez uma coletânea “Decapitados” em fita cassete.” – Relembra Rene de França, guitarrista.

De demo em punhos, o Corte vai fazendo a correria e começa a circular por onde era possível. Festas punks, eventos no teatro municipal, roles de amigos e assim, passa a ser uma banda reconhecida dentro do cenário underground. Da para dizer que tudo ia bem, talvez pudesse até melhorar.

Mas então, no meio caminho do caminho, eis que surge o berro das câmeras de TV. E depois delas, tudo fica bem diferente…

No Meio do Caminho, Havia a Rede Globo…

Quando chega a noticia de quem um festival realizado no Jardim Silvina, em São Bernardo teria uma matéria no Fantástico, da Rede Globo, as expectativas poderiam ser boas. Todavia, falamos da Rede Globo…

“Claro que o Festival foi realizado da forma mais precária possível de se imaginar. Estamos falando da periferia de São Bernardo no começo dos anos 80. Mas isso não importava muito, o que seria legal, era o fato de que todo mundo que estava fazendo um som estaria ali. Isso que deveria importar para equipe de televisão que estava ali, mas não foi o que houve” – Marcelo Mazzucato, falando de toda débâcle que viria pela frente. Típico:

Umas brigas, algum tumulto, o prato cheio para a Globo estampar no Fantástico, no domingo à noite, com 60% das tv’s do País ligadas no canal, a pior estampa possível daqueles jovens punks pobres. Clichês como “Geração Perdida”, “Marginalidades” e “Subversão” foram martelados para todo Brasil ver. As cenas eram maquiavelicamente planejadas pra o fim que de fato teve.

“Ficou impossível continuar no movimento depois daquilo. A pressão era forte, ficamos visados, tudo em cima de nós, que éramos jovens e sentimos o golpe. Mesmo assim, o Corte não parou, mudamos rumo da banda e prosseguimos” – Conta Rene de França.

Sim, o Corte Marcial, a partir do episódio do Fantástico, começa a flertar com a cena musical do pós-punk que viria pela segunda metades dos anos 80. Não foi mais a mesma coisa, não havia mais a mesma energia, o País do Sarney não empolgava mais e as coisas passam a não fazer muito sentido.

Os quatro do Corte Marcial em 2017. Foto de Maristela Raineri.

 

Do Encerramento…

O Corte Marcial encerra suas atividades em 1988.

Seus integrantes seguiram cada qual seu destino, Marcelo Mazzucatto e Rene de França, seguiram trabalhando juntos em vários projetos musicais, hoje em dia, tocam no trio folk do Freud à Deriva. Fernando e Buba, embora não tenham saído totalmente do mundo da música, trabalham em outras frentes.

De tudo, o que ficou foi uma amizade de quase 40 anos. Para Estranhos Atratores, fica a história. Que se registrem então os fatos para que se saiba de um pouco da história que não é oficial, não é oficiosa, não tem a pretensão de ser nada além de um relicário de riffs, distorções e fúria em três acordes.

O Corte Marcial viveu isso. E segue vivendo da maneira que é possível.

Os Quatro…