A Liga das Putas

Por Eduardo Kaze

 

Prólogo

 Providenciadas pela luz da espiriteira improvisada com álcool e uma lata de atum, sombras se projetam nas paredes sujas e descascadas do quarto. A iluminação, no entanto, se modifica à medida que isqueiros habilmente acendem e apagam; nesse momento, é possível ver os rostos de Panamá e Aleijão, assim como ouvir o som da pedra de crack queimando sobre o cachimbo.

Em tais circunstâncias, noites se passam como dias, e vice e versa. Não existe diferença. Não existe tempo. Não existe nada senão o torpor da droga que, como regra, nunca basta. Nunca é o suficiente e, não demora, acaba novamente.

Do quintal da casa, escondida atrás dos arbustos, a moto de Panamá é cuidadosamente levada à rua. É hora de subir o morro, virar algo em pedra.

A permuta, muitas vezes, é a moeda corrente dos viciados. Nessas ocasiões, a droga sofre uma hipervalorização, culminando em absurdos do tipo: uma bicicleta por um papel de pó. Não foi o caso desta vez, contudo, não menos absurdo, um aparelho de som foi o eleito.

Pisando em ovos, a dupla segue até o portão e o abre com a leveza milimétrica possível somente aos usuários químicos. Montam a moto, saem na banguela, para não causar alarde; somente no fim da ladeira a partida é dada, e o ronco engasgado da CG 125 desaparece entre as vielas.

Uma biqueira como popularmente são chamados os pontos de venda de substâncias ilícitas, é um ambiente altamente carregado. Comumente, encontra-se um único homem – ou mulher, tanto faz – com sua sacola de supermercado cheia até a metade com cores que distinguem sabores e sensações para todos os gostos. Amarelo, cocaína… Azul, maconha… Rrosa, crack…. Uma bomboniere pós-moderna.

E não se engane! A aparente falta de segurança dos que portam essas sacolas é falsa. Olhos mais atentos captam com facilidade a presença de acólitos armados a sua volta; prontos para “mandar falar com Deus” o mais cristão dos transeuntes caso este não lhe transpareça confiança – nem sempre fuzilam os cristãos passivos de culpa.

A moto se aproxima e as palavras são poucas; o dialeto é entendido com facilidade, não carece de retórica, já que ambas as partes sabem o objetivo principal. Panamá dá o lance:

– Faz uma treta no som?

– Qué u`quê?

– Pedra!

– Quantas?

– Duas!

– Num vira… Uma!

– Firmeza!

E assim o aparelho é trocado sem nenhum pudor econômico. Mas isso não importa, a noite todo gato é pardo; hora de voltar.

A moto segue acelerando quase tão rápido quanto os corações de Panamá e Aleijão: palpitantes a qualquer sinal de luz semelhante a um giroflex de viatura. Panamá cruza as lombadas pelos cantos evitando sua corcova e vazando sinais vermelhos sem qualquer pudor –  é algo como jogar roleta russa utilizando a rua de agulha e o veículo alheio de cão. Mas o medo de ser apanhado é maior, e bem se sabe que a volta da biqueira é a hora mais tensa da jornada. É neste estágio que tudo pode ir por água abaixo. Ainda mais a Aleijão, que tem uma perna mais curta que a outra.

Uma nova luz aparece no horizonte próximo, seus corações disparam, e desta vez não diminuem mais. É a polícia, fazendo uma batida.

Com uma arma apontada pra sua cabeça fica difícil raciocinar. Com uma arma apontada pra sua cabeça chapada de crack, é impossível. T

Tapas e murros na costela são o idioma policial. Suas bocas são usadas tampouco e somente para fazer perguntas. O corpo e as armas para demonstrar as consequências da não cooperação. Normalmente, o viciado dispensa o flagrante antes da concretização do mesmo. Não foi esse o caso.

– Pegô o bagulho onde? – diz o chefe da operação: investigador Dagoberto, um dos piores policiais da cidade; dizem! – Abre o bico, nóia!

No pouco da viatura que Aleijão pode ver – Já que é cego de um olho – transparecem apenas três letras de uma sigla: R.R.A..

– Tão pensando que somo otário? Aqui é G.A.R.R.A. – e um soco trinca uma costela –, porra!

A placa da moto nesta altura já foi puxada tal como a ficha de antecedentes dos meliantes. Falta somente puxar a memória.

– Cês num tão afim de fala, né seus pau no cu. Firmeza…. Num tenho pressa. – Dagoberto abre o capo da viatura – Mas acho que vocês deviam ter…

Uma “chupeta” consiste em passar a energia de uma bateria carregada à outra, fechando um circuito contínuo; a diferença no caso presente, é que ao invés de bateria na outra extremidade do fio, investigador Dagoberto conectou os mamilos de Aleijão, segurando o conector de um dos polos, pronto a fechar o circuito.

– Iaí, pau no cú… Pegô onde?

– Pelo amor de Deus, senhô… Eles me mata…

– Morrê não é o pior que pode te acontecer, filho da puta!

Dagoberto fecha o curto. Aleijão revira o olho e se debate em meio à corrente elétrica que o investigador cessa a tempo de mantê-lo vivo.

– Na próxima teu coração explode!

Panamá estava, no entanto, mais aterrorizado que Aleijão; que naquele momento mal sentia seu corpo, que dirá seu medo.

– Por tudo que é sagrado senhor. Vai mata meu brother. Num precisa disso. Somo trabalhador…

– O outro resolveu brinca também.

Investigador Dagoberto gesticula para outro policial enquanto Aleijão vegeta moribundo no chão – Traz esse aqui pra vê se o choque acorda ele…

Panamá entra em pânico. Os conectores presos aos mamilos, pensa ele, já seria tortura suficiente para fazer qualquer um confessar ter matado Kennedy. E o choque de mente vindo de Dagoberto era talvez mais aterrorizador que o vindo da bateria.

– Vai fica torradinho. – ironiza Dagoberto – Sabe que eu nunca pluguei isso em alguém e tirei sem dar pelo menos um choquinho?

– Pelo amor de Deus senhor. Tenho coração fraco por conta da droga.

– Então vai ser meu recorde, filho da puta… Vai explodi na primeira carga. –  o investigador ameaça fechar o circuito, Panamá caga em si mesmo e cede.

– Eu falo! Eu falo. Só num me dá esse choque pelo amor de Deus…

O investigador solta uma gargalhada de satisfação e proclama ao resto:

– Bora lá macacada! Os ramelão num aguentaro. Bota no chiqueiro e vamo roda pra conversa…

Panamá dáos detalhes exigidos pelo policial enquanto Aleijão aos poucos volta a si. O investigador bate um rádio e outra viatura é designada ao ponto onde se encontra a biqueira.

Assim, são detidos Panamá, Aleijão, e os traficas.

Delegacias são lugares frios e sem vida. Como se as pessoas que ali trabalham tivessem deixado de existir como pessoas. Tornaram-se maquinas, calejadas pela vida insólita que levam pra ganhar o pão. – Talvez por isso tirem tanto o pão dos outros.

Uma sala guarda pessoas de tipos mais diversos: travestis, bêbados, pederastas… Panamá e Aleijão, aguardando para serem julgados pelo legislador máximo daquele distrito: Delegado Diaz.

Fazia dez minutos que o delegado interrogava os traficantes que, para a sorte de Aleijão e Panamá, não os havia visto; duas salas davam na sala do delegado para que nesses casos, delator e delatado não se cruzassem.

Quinze minutos se passam. Dagoberto sai da sala do delegado.

– Bora lá seus nóia. Tá tudo acertado – enfia novamente no chiqueirinho da viatura.

– Pra onde cê ta levando nóis – indaga Panamá.

– Cala boca aí, seu pau no cu…

Panamá percebe haver outra viatura à frente, com dois homens na mala. Aleijão continuava em choque.

– Tamo indo pra outra delegacia, senhô?

Dagoberto responde com uma borrifada de spray de pimenta que, pela distância, deve tê-lo afetado também.

– Já mandei cala a boca, porra.

A viatura para e Panamá e Aleijão são descarregados e, ainda que semi cegos pelo spray, identificam onde estão: Na biqueira.

– É isso aí seus otário. – diz Dagoberto – Isso aqui agora é pra vocês larga a mão de ser alcaguete.

A venda de drogas é um comércio altamente lucrativo. Movimenta milhões, bilhoões por ano. Esse fato logicamente não passa inerte à vontade e a ganância da defesa pública. Ao contrário, acima disso, por vezes formas de se bem-feitorar com a situação é a regra.

– Aí – dirige-se o investigador a um dos traficantes, desalgemado por outro policial – Esses aqui foram os que caguetáro vocês! Como combinado com o delega… Tá ai na mão de vocês. Bom proveito…

A viatura se vai, deixando Panamá e Aleijão para serem julgados por seus algozes.

Para a história, resta uma breve nota no jornal:

 “Encontrados dois corpos carbonizados e com as línguas cortadas. IML diz não existir condições de identificação; policia se omiti.”

 Continua…

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