Por Eduardo Kaze

Foto: reprodução internet.

A Liga das Putas

 

Parte Um

 

Lígia Scapullato entrou cedo na vida. Aos quinze já perambulava pelo porto e vendia o corpo aos pescadores. Também pudera, aos quatorze foi desvirginada pelo próprio pai, que a estuprou bêbado e violentamente na noite de natal. Um presente que jamais esqueceu.

Não demorou, fugiu de casa, transformou sua vida em uma jornada sem rumo; de caminhão em caminhão, prestava favores sexuais em troca de um destino qualquer. Foi assim, até o dia em que conheceu Laura.

Laura, mulher vivida e sagaz, era a meretriz mestra da famigerada casa de massagens La Notche, localizada ao norte do Paraná. Laura lhe acolheu como aprendiz, a considerava quase como filha, e ensinou-lhe os macetes e mazelas da profissão.

Na noite em que Laura morreu, vítima de uma overdose de cocaína, Lígia adentrou seu escritório e afanou o dinheiro do cofre. Sabia que era a única que tinha a combinação, e quando depois de um bom tempo, finalmente conseguissem arrombar o cofre, ela já estaria em São Paulo.

Lígia partiu assim com uma quantia razoável de dinheiro e incontáveis ensinamentos de Laura. Não houve remorso, nenhuma lagrima, só raiva, pois no fundo, Lígia sabia que a morte de Laura era somente a morte de mais uma vítima de si mesmo.

Em São Paulo Lígia começou a erigir seu império, começou com a boate “Serra Leoa”, uma homenagem a Laura que jurava provir da cidade africana. Em pouco tempo, tornou-se referência na região, e cansada da desorganização eminente da classe prostituinte, fundou a popularmente conhecida “Liga das Putas”, algo semelhante a um sindicato do submundo. Criou poder entre meretrizes de toda cidade, tendo papel por muitas vezes de tutora e protetora de todas aquelas que tomavam como objeto de trabalho a própria carcaça.

Tamanho status, no entanto, não é coisa que se alcança sem fazer concessões, e é por esse motivo, que atende sem pestanejar autoridades e políticos de toda espécie e escalão sem cobrar michê.

Era uma noite de pouco movimento no Serra Leoa. As luzes movimentavam-se sem a presença das meninas para lhe dar cor, e a música soava opaca para os poucos ouvidos que a acompanhavam. Dois gatos pingados ocupavam o balcão, acompanhados de duas meninas que assediavam seus bolsos desinteressados. Somente um programa estava em andamento, porém, era o mais importante

O Delegado Anacleto Diaz era frequentador assíduo do recinto, tinha por hábito, levar pra cama sempre a mesma guria: Carmine. Carmine era negra e voluptuosa, de cintura fina e quadris largos. A bunda parecia desenhada sob a saia que lhe acentuava; os cabelos pretos e lisos tocavam levemente seu cóccix, de tempo em hora, revelando dois furinhos que lhe marcavam o começo das nádegas. Olhos verdes fechavam o pacote.

Era a obsessão de Diaz, e naquela noite, não foi diferente. Ao chegar, lhe enconchou abruptamente por traz, roçando-lhe o queixo de barba malfeita no pescoço, despejando-lhe as mesmas palavras sinuosas de sempre ao ouvido:

– Oi nenenzinho! Papai chegou pra brincar…

Carmine o odiava, mas Lídia sempre disse, que gostar de cliente é chupar cabeça de cobra. E sendo assim, noite após noite, saciava os desejos sujos do delegado, que além de tudo, era o delegado; cliente de cama cativa.

Carmine profissional que era, levava o delegado ao ápice do prazer a dois. Ao passo que emitia gemidos de falso prazer, tocava os seios em sinal de falsa entrega e simulava falsos orgasmos. O delegado ia ao delírio sendo cavalgado por Carmine.

– Isso meu touro, enfia forte que eu gosto.

– Vem minha égua, pula feito uma cabrita.

A fazenda sexual do delegado normalmente estendia-se por horas, Carmine lhe fazia gozar ao menos três vezes por programa.

Naquela noite, contudo, o delegado demorava mais que o habitual, e Carmine já se enchia da pica do delegado que não cedia. Botou ritmo então.

– Vai vaca… Assim… Assim…

O delegado apertou-a pelos quadris e a castigou com uma força que Carmine sentiu no fundo de seu eu. Um som parecido ao de um urso em agonia vazava da boca de Diaz, fazendo com que até mesmo Carmine sentisse vergonha.

– Isso piranha vem… Vem… VEEEEM.

Carmine gritava também e naquela altura achava que o pau do delegado havia dobrado de tamanho. Sentiu um último apertão nos quadris, o mais forte de todos, sucedido por uma moleza. O delegado gozou, e desabou na cama. Carmine o abraçou em falso carinho.

– Ai meu urso… Hoje cê tá hein…

Não houve resposta, a moleza do delegado também era extraordinária, e mais que isso, Carmine engoliu seco e suou frio, ao constatar que a moleza era póstuma.

Carmine saiu aos prantos do quarto em direção ao salão, àquela altura, os dois gatos pingados já haviam sido espirrados do recinto por incompatibilidade financeira. Lígia correu em socorro de sua menina, que mal conseguia falar em repúdio a transa com o cadáver.

– Que foi fía? – Lígia acudiu – Que aconteceu

– Ele morreu capitã!

– Morreu como minha nossa senhora?

– Num sei! Só sei que morreu… – E o pranto voltou a invadir Carmine.

Lígia era mulher fria. Sabia bem o que fazer sem pestanejar com chororos. Se o delegado tinha morrido no seu estabelecimento, era o caso de ocultar; ou sofrer as represálias.

– Vanessa – izLígia a outra menina – vai no quarto e procura nas roupa do delegado a chave do carro dele. Depois veste ele.

– Mas porque capitã?

– Vai logo e deixa de moleza criatura.- E a menina correu.

Ligia acomodou o corpo do delegado no banco de traz do carro. Sentou-se ao volante, e deu ordens a suas concubinas.

– Vocês toquem a casa e finjam que nada aconteceu. Vou dá um jeito de parecer que ele morreu depois de sair.

E o carro partiu deixando a marca do pneu cantor para traz. Lígia tinha formulado em sua mente uma morte justa para o delegado: Após uma noite de muito trabalho em seu escritório na delegacia, Anacleto Diaz dirigia-se calmamente para sua residência, quando um ataque cardíaco fulminante o fez perder o controle do veículo e despencar viaduto abaixo. Fácil de engolir.

Com o carro parado na medida calculada, Lígia Dispôs o defunto na posição de condutor, enganchou o pé do cadáver ao acelerador, engatou a marcha e o empurrou para sua segunda morte.

Um enorme estrondo tomou a noite quando o carro varou a mureta. Lígia esperava o estrondo do impacto com o chão, quando este foi antecipado por um som de freada, E sucedido por um estrondo duas vezes maior. Correu para a borda do viaduto e viu que o carro do delegado havia atingido outro carro na queda, atingido em cheio. Incrivelmente aquilo não a abalou, deixou até escapar uma leve risada de criança que fez arte, atravessou a avenida, e subiu no primeiro ônibus que apareceu. Não tinha passado da roleta quando ouviu as sirenes do resgate.

No outro dia, o funeral do delegado saia. Duas filhas e a esposa choravam a perda, cercadas de amigos e parentes que dividiam a dor. Todos do distrito estavam presentes, e rodeavam o caixão emitindo mensagens de falsa sinceridade.

– Como era bom esse homem… – Honesto, caráter de ferro… – Nunca mais teremos um delegado como o Diaz

O ápice do enterro foi o momento do discurso do homem mais próximo do delegado, seu amigo pessoal: investigador Dagoberto.

– Hoje é um dia triste na história. Deixa este mundo, o homem de maior caráter e coração que todos aqui presentes desfrutaram do prazer de conhecer… Senhor Anacleto Diaz. Delegado Diaz, para muitos de nós. Este homem, que tanto tempo nos direcionou rumo ao bem, deixa este mundo como herói, dedicando seus últimos momentos de vida ao trabalho, perdeu a mesma em perseguição a traficantes. Dois marginais, que carregavam consigo, vinte quilos de entorpecente em seu veículo. Em um ato de puro altruísmo, atirou o próprio carro e a própria vida sobre o os meliantes, como forma de coibi-los, como forma de coibir o tráfico que deflora e deforma a sociedade contemporânea…

Ao som de aplausos a salva de tiros começa e o caixão desce sublime rumo ao leito onde descansa o cadáver do delegado Anacleto Diaz. O grande homem.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *