Por Marcelo Mendez

Fotos: Maristela Raineri

O jazz não nasceu na sala de estar da sua casa.

Ele não está em últimas, em derradeiras gerações de aparelhagens de som, nos ápices do high tech tecnológico que a indústria inventa e que a publicidade martela como sendo o “ideal”. Não está condicionado a gelos que balançam em copos chiques de uísques 12 anos, tampouco se acha, por entre paraísos artificiais das vidas de outsiders de plástico.

Não.

O jazz está no que sangra, via paletadas em fúria. Na nota que quica em harmonias improváveis, no improviso que flameja o verso que nasce em semânticas atonais, difusas, intensas, no que há de improvável em ocupar um espaço e cometer seu som.

O Jazz é o que é possível de se sentir.

E disso, quem sabe é o Conde Favela de Mauá. Ontem no Red Light, eles cometeram o Jazz Novamente…

Jazz nos Moldes de Mauá

Edson Ikê, Mabu Reis, Buruga Buru, Arthur Vital, Rafael Cab, Alex Dias; Esse é o sexteto que forma o Conde Favela.

Juntos, esses seis caras têm rodado pelo Abc e por Sâo Paulo, em noites lindas, ou tão somente melancólicas, em palcos mais tranqüilos e outros mais vivazes, em dias de muita luz, ou apenas outros em que a alegria aparece apenas em frames, não importam as condições:

Donos de um propósito firme, calcados nos preceitos da música modal, tonal e atemporal, o Conde Favela ousa, em tempos chatos e coléricos, ser autêntico, diferente e verdadeiro com suas crenças e convicções. Trata-se de um time de músicos sem medo de serem o que vivem, de tocarem as suas verdades, sem medo de nenhuma outra decorrência que venha dessa decisão.

 

A Catarse que Vem do Zaíra

Teve uma versão sacudida de “Backslash” do lendário Fred Hubbard, com os metais à frente, numa escala rítmica que agradaria decerto, o velho trumpetista. Ele ficaria inebriado ao ver Mabú Reis fazendo todas as parábolas possíveis e imagináveis, em cima de uma música que nasceu a partir de um porre com seu amigo Stanley Turrentine. Depois veio o happening…

É uma espécie de fenda no tempo, um hiato que aparece em meio à realidade, que faz todo mundo ficar quieto, algo desse tipo… É o que rolou no instante em que Buruga Buru, começa a introdução do seu tema “Zaíra 13”. A música com escalas e concepção de composição árabe, dilacera o espaço que era apenas de um bar, para elevar os que ali estavam, a um transe, uma viagem musical, alucinante. São 8 minutos de uma quebradeira mordaz, implacável.

Uma catarse!

Recomendo a todos vocês, que abra então uma fenda em vossos tempos para que se veja o Conde Favela em ação.

Um jazz que não tem medo nenhum de ser de Mauá, com jeitão da quebrada e verdadeiro como o jazz de fato sempre foi.

Não tocará na sua sala de estar, mas tenho certeza que você curtirá o role.

Vai por mim…