Por Ana Aparecida

Fotos: reprodução.

Manchas de ferrugem tingem a parede, escorridas da armação metálica que sustenta o forro no teto. Entre os corredores de pintura suja e descascada, ecoa o grito angustiado de um bebê. Tosses e gemidos e cochichos promovem uma sonoridade desarmoniosa na sala de espera. Pessoas buscam a cura num ambiente que, por si só, já é doente.

Eu nunca vi um bebê de meses gritar desse jeito, o som de sua angústia é um misto de tosse grave e choro agudo. A avó o embala calma, mas tem marcas de ansiedade na testa. Ao seu lado, a mãe parece atônita, olhando para um infinito que não há neste lugar, em que tudo remete à finitude, exceto a espera. Três gerações de tristezas, unidas pelo sangue e pela dor, numa mesma fileira.

Aguardo ser chamada, após ter feito a ficha e passado pela zona de classificação de risco. “Classificação de risco” é uma terminologia moderna demais para o meu gosto e me soa demasiado estranha. Parece nome de lugar onde se realiza o controle de epidemias, ou para o atendimento emergencial de pessoas em caso de guerra, desastre, calamidade pública. Também parece coisa de romance distópico, ou de filme de ficção cientifica.

No fim, é uma sala branca onde a técnica de enfermagem realiza uma triagem, verificando qual é o grau de nossa doença, ou melhor, dos seus sintomas. Ela encaminha prioritariamente ao atendimento quem está com dor intensa, com febre, quem sofre de hipertensão e também as crianças, as gestantes e as velhinhas e os velhinhos. Parece justo.

Sento-me numa longarina cor de laranja que fica de frente com a recepção. Minha vontade é correr para a casa, para a caneca de chá, para o abraço desengonçado dos cães, para o meu aconchego. Queria fugir dos protocolos frios, dos diagnósticos mais instintivos que técnicos, das alopatias. Mas o meu corpo me diz o contrário, pesado e dolorido sobre o assento de plástico duro, pede que eu fique.

Tento encontrar algo no dispositivo leitura. Margareth Atwood não parece uma boa escolha no momento. June é uma personagem impressionantemente bem construída, mas a sua voz, tão lúcida, me deprime. De resto, são bibliografias de pesquisa, que não podem ser mais urgentes que a minha falta de ar.

Um cheiro de aparelho eletrônico queimado empesta o ambiente, algo semelhante ao que o meu secador de cabelos emite quando a sua resistência pifa.

Guardo o dispositivo na bolsa e me dirijo para a longarina em frente ao consultório onde possivelmente serei atendida.

Mas é dali que vem o cheiro.

Cruza comigo nesse corredor dos consultórios o moço sorridente da manutenção, ele carrega uma escada, a posiciona rente a mancha alongada da ferrugem escorrida. Há fogo sobre o forro. O cheiro de fiação queimada se alastra e faíscas começam a despencar do teto.

Foto: Nete Rezende (publicada no grupo “Pensar Ribeirão Pires” no Facebook).

Ele apaga o primeiro foco com um extintor de água. Um segundo foco se inicia, bem acima da área dos recepcionistas e é combatido por um bombeiro civil que chegou assustado e de repente.

Seria ironia do destino ou descaso esse bando de gente morrer queimada justamente onde busca a cura?

O estado de saúde do local é bem mais grave do que eu pensava.

É quinta-feira e eu estou inalando fumaça quando poderia estar, sei lá, em casa planejando o final de semana, escrevendo, atendendo alunas pela internet, regando minhas plantas, ou simplesmente encarando os casulos de mariposas no quintal, enquanto espero meus sintomas sumirem do mesmo modo que surgiram.

Após uma odisseia (que passa pelo despeito do chefe da manutenção com a preocupação dos usuários do PS, pela chegada e saída de soldados do Corpo de Bombeiros, sem uma avaliação das condições do espaço e por meu formulário de atendimento perdido no meio da confusão), um homem de sotaque castelhano e cabelos grisalhos finalmente chamou por mim. Sua sala é estreita e sua mesa de trabalho está repleta de carimbos. Ele usa um uniforme de tom verde anêmico e tem um ar insolente.

Boa tarde. Você fuma? (Será que ele precisa de um cigarro? Um isqueiro?) Sim. O que está sentindo? (Eu gostaria de dizer: “raiva”, mas, minha vida nas suas mãos impede). Sintomas de gripe que evoluíram para uma crise de sinusite, que sofro anualmente, etecetera etecetera. Precisa prevenir. Eu precisava mesmo era ouvir isso. Respire fundo. …. Mais uma vez. ….. Teve febre? Não. Vai tomar um antibiótico, um xarope, um descongestionante e, antes de ir embora, vamos fazer uma inalação. (Hummmm Berotec com fumaça, dr.? Acho que não). Prefiro fazer em casa, sem Berotec. Tem certeza? (Annn, deixa eu ver se quero aproveitar essa oportunidade única de sair correndo em meio à fumaça com os brônquios dilatados?). Tenho. Tudo bem. Esse remédio aí que o sr. receitou causa taquicardia? Não. Ótimo, bom trabalho e obrigada. Tá, tá. Obrigado.

Saio do consultório com a receita em mãos, os nomes dos remédios (e suas respectivas posologias) estão carimbados. Talvez seja para agilizar o trabalho do médico, talvez porque o tratamento tenha de ser padronizado para ser eficiente, talvez porque a vida da gente não valha o tempo que o médico gasta para rabiscar sua caligrafia torta numa tira de papel timbrada pelo município.

Talvez eu esteja um pouco mais doente do que quando entrei.

 

Ribeirão Pires, 23 de novembro de 2017

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