Por WC Ignobil

Me lembraram que hoje é aniversário do Bukowski, meu querido velho safado. Tava pensando na porrada que foi quando, atraído por um desenho do Crumb, como o que ilustra essa publicação, li pela primeira vez um conto dele numa dessas revistas semi-independentes que circulavam nos anos 90.

Perdoem-me a analogia fácil, mas, só consigo comparar com a sensação do primeiro porre. Algo do tipo: Porra! Onde você esteve durante toda a minha vida!?Comecei a buscar ávidamente tudo que levasse a assinatura do Buko e a cada livro terminado, sentia saudades do Chinaski como de um velho amigo que se fora.

Eu me embebedava, ria, chorava , brigava e trepava ao seu lado. Isso nunca havia me acontecido antes com literatura. Na época eu iniciava minha carreira nos bares ao mesmo tempo que tomava consciência de que nunca teria um relacionamento comum, tranquilo e saudável na vida.

Eu era (sou) louco demais. Mas era a minha loucura! Conheci outras pessoas que partilhavam dos meus interesses numa época em que não era cool gostar do que a gente gostava. Éramos garotos metidos a beatniks.

Eu gostava muito dos beats, mas me identifiquei muito mais com Bukowski. A liberdade da que ele falava me parecia bem mais real do que a celebrada por Kerouac, Ginsberg e Cia. Era uma liberdade muito mais difícil e dolorida. Tinha a ver com olhar para as pessoas e para o mundo em sua volta e ter certeza que não pertence a lugar nenhum, mas, em vez de se desesperar por isso, abraçar e brindar à essa solidão. Puta merda!

Como eu me sentia e me sinto assim. Logicamente que a parte de abraçar a solidão, só fui sacar com o tempo e muita poeira na garganta. Por essas e outras, fico enjoado como se tivesse tomado um litro de Canelinha, cada vez que vejo um pirralho que nunca leu um livro, soltar aos ventos, frases e citações do Buko para parecer descolado.

Creio eu que ele disputa nariz a nariz com Clarice Lispector o pódio das redes sociais. Bizarra ironia para um antissocial, não? De qualquer forma, foda-se.

Esse não é meu mundo e como escreveu o próprio: Eles que se estupidifiquem entre eles! Lendo Bukowski descobri onde me sinto um pouco mais à vontade. Entre as pessoas simples. Os fodidos e os Zés-Ninguém que vivem a mercê de um Sistema falido sempre pronto a devorá-los se fraquejarem. Ali está a beleza. A beleza que existe na verdade que geralmente não é nenhum pouco bela. Aliás, muitas vezes escuto falar: Bukowski é legal porque escreve sobre bebedeira e putaria. Sinto muito,mas, quem diz isso, não entendeu nada ou entendeu muito pouco. Bebedeira e putaria são fundamentais , mas trata-se de muito mais que isso.

Em seus contos, romances e poemas, a beleza brota nos ambientes mais sórdidos e desesperadores. Bem como, pérolas de sabedoria e profundas reflexões sobre a experiência humana entre um porre, uma briga e mais uma foda. Foi isso que me encantou e me encanta até hoje!

Tantos anos depois dos primeiros contatos, quando leio algo de Bukowski pela primeira vez, parece que ele está falando de mim e para mim! A mágica ainda acontece! E se a arte existe pra tornar a vida mais suportável, sua obra tem cumprido com maestria essa tarefa.

Pelo menos na vida deste velho Dáblio C. sempre buscando sua Jane Louca ou sua garota mestiça de índia com corpo flexível nas madrugadas da cidade.

Um brinde ao Velho Safado!

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