Por André Okuma

Fotos: Reiko Otake/André Okuma e reprodução internet.

Em janeiro eu e minha companheira (e quem me ajudou a pensar este texto) estivemos na Índia fazendo um mochilão, apareceu uma promoção de passagem aérea e sem pensar duas vezes fiz um empréstimo no banco e no réveillon já estava sobre o Atlântico. Mumbai foi a primeira parada, a cidade mais rica da Índia, famosa por ter a maior estrutura cinematográfica do país e uma das maiores do mundo, conhecida como Bollywood, o nome vem de uma mistura de Bombaim (antigo nome da cidade) com Hollywood.

Quando chegamos em Mumbai imaginava chegar num lugar mágico, numa espécie de paraíso do cinema, mas na real pra quem tá de mochilão no rolê falta o dinheiro pra comprar a “magia”. Eram três mil rúpias indianas para fazer um tour de 2 horas nos estúdios de Bollywood (cerca de 150 golpes brasileiros), porra com esse dinheiro dá pra ficar hospedado uma semana inteira num hostel da hora ou ainda dá pra almoçar num bom restaurante por 12 dias (metade da viagem), achei meio caro, ficamos de pensar se seria uma boa ou não ir conhecer Bollywood.

Nos hospedamos num hotel barato em Grant Road, um bairro que em outros tempos era um pico barra pesada mas que atualmente é uma área comercial decadente com a especulação imobiliária batendo na porta, é um lugar caótico cheio de taxis, tuk tuks, camelôs, vacas, poeira e barulho, a Índia é um lugar difícil de explicar em palavras, pois não é parecido com absolutamente nenhum lugar do Brasil, ao mesmo tempo que é uma bagunça, ela é organizada, ao mesmo tempo que é estressante há uma calma, é inevitavelmente uma explosão ininterrupta de vida. Dando umas voltas pelos arredores do bairro vimos que ali no meio daquela catarse visual e sonora havia vários cinemas de rua, todos aparentemente velhos, alguns fechados, outros ainda funcionando, todos exibiam apenas filmes indianos. Resolvemos ir ver um filme em um deles, escolhemos um bem do lado do hotel, um cinema chamado “Alfred Talkies”, depois pesquisando descobri que é um dos cinemas de rua mais antigos de Mumbai, seu edifício foi construindo em 1880 a principio como teatro e desde 1932 funciona como cinema.

Era um sábado à tarde, chegamos logo depois do almoço, porém, a primeira sessão era apenas às 15h, fomos num restaurante mulçumano em frente tomar um sorvete, de lá deu pra ver a fachada do cinema que, como nos cinemas de rua brasileiros dos anos 70/80 os outdoors de divulgação dos filmes eram feitos artesanalmente e fixados na fachada do prédio, um trampo absolutamente trabalhoso e efêmero, pois, a cada troca de filme (cerca de 1 ou 2 semanas) o cartaz gigante feito a mão é jogado fora ou reaproveitado para confecção de outro.

Uns 15 minutos antes de começar o filme entramos no hall do cinema, era uma entrada bem simples e decadente, me lembrou um pouco aquelas associações de bairro meio abandonadas, em que os tiozinhos ficam jogando dominó o dia todo, um prédio sem manutenção cheio de rachaduras e manchas do tempo, parecia que aquele lugar também não via uma faxina há uns bons anos. E pra nossa surpresa, o recinto estava cheio de gente, na bilheteria, com um inglês quase incompreensível o bilheteiro nos advertiu que o filme era falado totalmente em hindi, o idioma principal em Mumbai (oficialmente a Índia tem 22 idiomas/dialetos) e que era proibido tirar fotos. Nos cinemas indianos os ingressos tem 2 preços que variam de acordo com o lugar que você vai se sentar, tem a parte da plateia inferior, e o balcão que é na parte superior, compramos os ingressos para o balcão por 25 rupias (R$ 1,25), a parte de baixo custava 20 rúpias (1 real). O preço do ingresso é bem barato, mesmo para o custo de vida indiano, proporcionalmente falando, seria como se o ingresso de cinema no Brasil custasse cerca de R$ 2,50 (preço único). Este preço torna o cinema um programa altamente democrático e popular, no hall do cinema havia aposentados, estudantes, trabalhadores em horário de descanso e moradores de rua.

A sala de cinema era gigantesca devia comportar umas 1000 pessoas, o telão era igualmente enorme, cinemão mesmo! Na Índia ainda existe a figura do lanterninha, o cara que fica organizando o rolê, no caso era um senhor de uns 60 anos bem pouco amistoso. Antes do filme tocou o hino nacional da Índia, as pessoas ficam de pé cantando e tudo, o filme começa já na sequência, sem trailers, a projeção era em película numa cópia 35mm bem deteriorada, desbotada e cheia de riscos, o áudio estava bom,  pela direção de arte dava pra ver também que o filme não era atual, aí me dei conta de outra particularidade dos cinemas populares na Índia, os filmes que estas salas exibem são filmes bollywoodianos antigos, neste caso era um filme de 1997.

O filme que vimos se chamava AUZAAR, um típico filme bollywoodiano, ou um filme “masala” como eles dizem. Masala é um tempero muito comum na culinária indiana, ele varia de lugar pra lugar, mas basicamente é uma mistura de ervas e sementes que dão um gosto meio salgado, meio apimentado, meio ácido e meio doce, assim mesmo, tudo junto. O filme bollywoodiano é assim, no mesmo filme tem tiro porrada e bomba, um dose mexicana de melodrama, um romance bem água com açúcar, umas esquetes de comédia bem zorra total old school e é claro, as danças, muitas danças, tudo isso em mais de 2 horas de filme, a película era um clichê atrás do outro, tanto que ver o filme com áudio em hindi sem legenda pouco atrapalhou o entendimento do filme, no cinema indiano há também uma outra particularidade interessante, um dos principais turning points (aquele momento do roteiro que tem uma reviravolta na trama) fica bem no meio do filme, e não nos 2/4 e 4/4 do filme como é o caso dos filmes hollywoodianos, isso acontece porque bem no meio da exibição tem um intervalo, bem quando acontece o turning point, ou seja, na hora que o roteiro engrena, o filme pausa e acende as luzes pro pessoal ir fumar um cigarro, comprar uma pipoca e ir ao banheiro. Voltando ao filme, uma coisa também latente nesta película (e em muitas outras que eu assisti depois na tv indiana) é a idealização do padrão de beleza europeu, mas com figurinos tipicamente indianos, os personagens principais pareciam sósias do Nicolas Cage e do Charlie Sheen, a objetificação da mulher também estava bem presente (o filme também reprovaria no teste Bechdel), mas apesar disso, o filme era bem pudico na exploração sexual da imagem da mulher (no cinema indiano não pode ter cenas de sexo, e nem de beijo, inclusive este é um dos motivos do cinema estadunidense não ser tão consumido na Índia). Outro ponto é uma exaltação da riqueza material, tipo novela da Globo, o filme mostrava uma Mumbai fictícia, tipo Manoel Carlos mostrando o Rio de Janeiro. De maneira geral o povo se divertia e vibrava com o filme, é verdade também que havia alguns que estavam lá para tirar um cochilinho, de qualquer forma uma coisa é certa, mobilizar centenas de pessoas é um grande feito, ainda mais para ver um filme que não é lançamento, é neste lugar que o cinema lá resiste tanto, o cinema foi apropriado pelo povo, o rolê lá não é meramente um negócio, é uma cultura, mesmo que controversa (ainda sim é indústria cultural). Pelo que percebemos o cinema bollywoodiano é um tipo de válvula de escape, na Índia há muita repressão, lá é proibido o comércio de bebidas alcoólicas, além de ser um país com uma desigualdade social absurda e complexa (lá tem aquele lance das castas), o cinema de alguma forma ocupa esse lugar anestésico na sociedade indiana, e o final feliz do filme é o afago na ansiedade, igual aos filmes hollywoodianos.

É importante dizer que o cinema indiano não se resume a Bollywood, há outras indústrias cinematográficas na Índia como Tollywood, Kollywood (que produzem filmes em outros idiomas indianos) entre outros, e que juntas produzem mais filmes que Hollywood, lá praticamente não há incentivo do governo e ainda que de uns anos pra cá o cinema industrial indiano tenha produzido alguns filmes mais “sérios” os filmes indianos tem essencialmente uma pegada bem comercial, há filmes produzidos por cineastas independentes que possuem um viés mais crítico e denso, eles chamam esse tipo de filme de “Cinema paralelo”, mas devido a dificuldade de produção (como no Brasil), essa modalidade é bem ínfima e restrita a poucos espaços de exibição (não conseguimos achar nenhum na viagem), tendo muitas vezes reconhecimento fora do país.

Depois pesquisando mais a fundo o tour pela Film City de Mumbai, vi que os pacotes incluíam levar turistas para passar em frente das mansões das celebridades de Bollywood, e que a Film City era mais um projac tosco que exaltava a alienação e do culto do espetáculo e do star system, acabamos desistindo de ir conhecer.

Fomos ver outro filme em um cinema mais moderno, com ar condicionado, cadeiras estofadas e ingressos 4 vezes mais caro, vimos um lançamento indiano, e tudo lá tinha a ausência de masala, na tv naqueles dias o primeiro ministro da Índia deu uma entrevista de Davos, falava sobre o crescimento econômico e modernização da Índia. Percebi ali a luta do “Alfred Talkies” o velho cinema de rua mesmo na sua latente decadência resistindo bravamente, uma luta quixotesca de um cinema analógico diante de uma Mumbai em transformação.

De toda forma, conhecer o Alfred Talkies foi muito mais interessante do que ver de perto os astros de Bollywood, ver um filme indiano em um cinema de rua na Índia foi uma experiência e tanto, foi como se eu tivesse entrado nas entranhas do cinema que vive dentro de mim, expondo o encantamento e a crítica, o vazio e a catarse, a representação e a vida como ela é numa relação que vai além dos sentidos, das complexas relações entre o artesanal e o industrial, da necessidade de romper as fronteiras entre o “erudito” e o popular, da democratização da cultura e da formação de público a longo prazo, estar lá foi uma aula de política cultural audiovisual.  

De volta fui ver um filme no Cinemark e depois outro no Belas Artes, me dei conta então de que na real o Alfred “talked” o tempo todo também sobre o cinema no brazil.

Notas:

Depois pesquisando sobre o cinema de rua que eu falo neste texto descobri que tem um documentário alemão sobre este cinema, não consegui achar pra baixar, mas tem o trailer aqui:

https://vimeo.com/205399924

o filme que eu vi tem no Youtube completo com legenda em inglês

 

 

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