Por Andre Okuma

Fotos: Andre Okuma

La Paz é uma cidade caótica como qualquer metrópole urbana, mas ela não é qualquer metrópole urbana, o seu caos é diferente. Tive o privilégio de estar lá pra exibir o meu último filme o “Isto não é um cachimbo” dentro de uma curadoria de filmes latino americanos “não convencionais” na Feria internacional del libro de La Paz.

Estar em La Paz não é uma coisa simples, o ar rarefeito por causa da altitude é um lance louco, seu organismo reage das maneiras mais diversas, falta ar, sua cabeça parece que vai explodir, seu nariz começa a sangrar e por mais cansado que você esteja você não consegue dormir, mas ao mesmo tempo que você parece estar morrendo há uma sensação de profundo encantamento, a cidade tem paisagens absolutamente incríveis e pessoas notáveis, do Illimani uma montanha nevada que pode ser vista de praticamente qualquer lugar de La Paz às cholitas, mulheres que carregam em suas vestimentas uma tradição que remete as tensões culturais hispânicas e indígenas na Bolívia, mas que hoje é um símbolo de resistência cultural, povoando as paisagens paceñas apresentam um universo cheio de cores e vida por causa de suas roupas e awayos, um tecido tradicional que elas utilizam para carregar absolutamente tudo em suas costas, comida, mercadorias e até seus filhos, os awayos mais do que um elemento de resistência cultural também é um símbolo de autonomia, pois sua praticidade e simplicidade a tornam independentes, não precisam da ajuda de carrinhos muito menos de homens.

A autonomia da cholitas no cotidiano paceño de alguma forma, percebo reverberarem no cinema independente boliviano que pude conhecer lá, dentro da programação do “Festival de Cine Radical” (http://www.festivalcineradical.com/) uma mostra de filmes que participou da feria junto comigo, descobri um cenário audiovisual crítico e autônomo, sem firulas e conversa mole, os caras do cine radical fazem o que é ainda uma utopia por aqui, uma mostra sem apoio de financeiro de ninguém, com uma  programação de vários dias, em vários pontos da cidade de La Paz e El Alto (uma Guarulhos da Bolívia), com estreias, oficinas na quebrada pra molecada e convidados internacionais vindos de toda a América Latina, sempre com sessões lotadas, exibindo filmes experimentais, políticos e provocativos. Perguntei pra eles como eles conseguiam fazer isso, me disseram que nem eles sabem explicar, só fazem e as coisas vão rolando.

Uma das minhas surpresas ainda foi descobrir que o cineasta colombiano Luis Ospina e Carlos Mayolo é uma grande influência pra eles, assim como Ospina e Mayolo e seu filme “Agarrando Pueblo” de 1978 (https://www.youtube.com/watch?v=szqPmaZ7KdQ) também é uma grande influência para mim e para o “Isto não é um cachimbo”.

Pude ainda ver o filme “Procrastinación” de Sergio Pinedo (http://www.cinemascine.net/criticas/critica/Procrastinacin-investigando-los-lmites-) uma paulada, uma ruptura radical com a linguagem cinematográfica, um falso documentário transgressor, feito em VHS, sem roteiro, um exercício de liberdade política e estética.

Tudo que temos ainda pensado aqui no Brasil os caras já fizeram lá, enquanto pensamos nas possibilidades da revolução digital com as DSLRs eles já assumem as contradições da imagem limpa de alta definição, enquanto brigamos por editais e sofremos baixas com a cooptação, eles se conectam em redes não só pela Bolivia mas em toda a América Latina em ações coletivas e autônomas.

O escritor Marcelino Freire estava também na feira, e tomando um café ele me disse um negócio certeiro, que nós brasileiros não nos reconhecemos como latino americanos, e que estar na Bolívia sofrendo todas as reações do nosso organismo à altitude, ao mesmo tempo que descobrimos este “universo paralelo” cheio de possibilidade e beleza, é como se fosse um ritual de passagem indígena para nos tornarmos de fato latino americanos.

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