Por Marcelo Mendez

Na foto, Fábio e Michael

Dois moradores de Rua morreram em Santo André.

Na noite fria de um final de agosto de vários apocalipses, os corpos foram achados com marcas de pancadas de barra de ferro. Seus corpos vão para debaixo da terra com todas as chagas de um fascismo que em grande parte, se consolida com essa nova ordem social:

“Não serve, elimina!”

No entanto mediante a perda, uma pergunta ressona:

Quem se importa?

Porque haveria o Cronista de cavoucar espaço para falar da morte de dois moradores de rua, pobres, à margem da linha de consumo, sem conta no banco, sem bens, sem posses?

Falo, porque entre todas as minhas possíveis obsessões, a maior sem dúvida é seguir humano…

Os dois assassinados eram pessoas ótimas.

Um deles, o “Raul” era amável, contador de piadas, estiloso com os seus óculos escuros chavosos, seu gosto por roupas pretas, casacos e afins, o outro companheiro era conversador, boa companhia, passava o dia ali a batalhar as moedas para comprar os seus pequenos pecados, não faziam mal a nada.

O defeito deles era tão somente, serem pobres.

E quem se importa?

Em um mundo onde a premissa reinante cada vez mais é o ódio, os dois mortos escolheram o amor. Quiseram a liberdade, a poesia de ter tempo pra jogar palitinho, freqüentar os amigos do bairro Casa Branca e por ali, terem seu réquiem de alegria. Não tinham documentos, dinheiro, carro novo, mas entre os que ainda tem um mínimo de humanidade nos corações, os respeitavam e lhes queriam bem e dae, vem o absurdo…

“Ser livre? Como pode isso?? Não!”

Mas tudo acabou.

O Bairro da Casa Branca em Santo André, não os terá mais. Nada de piadas, nada de um gole de corote sendo gentilmente oferecido, nada de um “bom dia” educado sendo desejado, acabou. Não os veremos mais. Em suas mortes, nada rolará.

O poder público não estará presente, não vai investigar sua morte, o grande público não vai chorar a perda, a mídia não irá querer saber do que houve porque nesse mundo duro e cheio ódio, dois moradores de rua, mortos a pancadas com uma barra ferro, não é noticia.

Portanto, nada vai mudar.

Não teremos minuto de silencio, glórias, lágrimas, pesares, protesto, quiçá um velório. Morador de rua morre sem ter a mínima importância na história, sem ocupar muito tempo nas indignações sociais de então.

Todavia, fiz questão de parar para sentir demais a perda dessas duas pessoas, não por nada, não por ter o sonho de resolver nada com isso.

Eu só quero seguir humano.

2 thoughts on “A lei da barra de ferro e os assassinatos templários – Marcelo Mendez

  1. Nossa cara que sentimento…
    Fiquei triste também ,outro dia passando pela Rua:General Glicério ,o Raul (como chamamos esse cara )estava fazendo xixi atrás de uma árvore em pleno dia de sol ,eu estava em horário de trabalho indo executar um serviço com minha equipe da prefeitura ,coloquei a cabeça pra fora do caminhão e gritei … – Vai matar a árvore Raul!!!! é muito álcool cara,ela vai bodiar. .. Na maior simplicidade olhou pra mim e disse … – Ninguém deixa eu usar o banheiro ,tem que ser aqui.
    Moral dessa história é o fato desse e de muitos caras das ruas estarem expostos a toda força humana e não poder contar com ela.

  2. Creio, que já deu! Não tem mais jeito. Há que se zerar esse mundo e, tentar novamente…😓

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